A performance “NÃO FAÇO IDEIA DE QUANTOS DEDOS TENHO” aconteceu no dia 23 de Março de 2016 e teve a participação do Pontogor e Luísa Nóbrega. O evento decorreu na Oficina Cultural Oswald de Andrade, e fez parte de uma programação/exposição que o Pontogor realizou com a Janaína Wagner designada por “Criatura”.

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Fig. 1 – cartaz da performance

A performance foi planeada para ter a duração de 3 horas. Para documentar o trabalho, optamos por utilizar o processo de gravação binaural. Neste caso, cada performer iria utilizar um par de microfones. Em conversa com o Pontogor, percebi que este estava interessado em explorar a possibilidade de ter uma documentação que permitisse ao ouvinte explorar perspectivas diferentes do trabalho. No final, tivemos um problema técnico com um dos gravadores, e só nos foi possível ficar com a gravação binaural feita pela Luísa Nóbrega.

No dia, encontro-me com o Pontogor umas horas antes da performance começar. Tenho a oportunidade de lhe passar o material de gravação e testar os gravadores. No espaço, encontro já dois pianos dispostos no espaço e uma vitrola. Temos a oportunidade de falar sobre esta disposição e a forma como este pensa em arranjar o espaço, com o intuito de dissipar convenções tradicionais na relação entre público e performance. Ao Pontogor, interessa quebrar com o este artificialismo e dar oportunidade às pessoas de presenciar o trabalho de diferentes formas. Existe também no discurso deste, um preciso uso da relação entre a produção sonora e a localização de objetos no espaço.  O que se segue é um relato e documentação da performance.

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Entro na performance, e reparo imediatamente na forma como os corpos estão dispostos e a sua relação com o piano. Lembro-me de o Pontogor falar de  uma relação diferente com o ato de tocar o piano. 

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Fig. 2 – “NÃO FAÇO IDEIA DE QUANTOS DEDOS TENHO”. Imagem de Rui Chaves

Claramente estes estão menos interessados em formas musicais convencionais, e mais nos efeitos performáticos e ritualísticos que uma determinada forma de ‘atacar’ o piano tem; na possibilidade de construir sonoridades e texturas que vão ecoar pelo espaço de performance. Isto é amplificado pelo trabalho de voz da Luísa Nóbrega — que em alguns momentos literalmente coloca a produção sonora que sai de sua boca em direção às cordas do piano — como se o corpo da Luísa quisesse cruzar e fundir com a madeira do grande cauda.

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Fig. 3 – “NÃO FAÇO IDEIA DE QUANTOS DEDOS TENHO”. Imagem de Janaína Wagner

A posição de ambos os corpos tem uma profunda dimensão escultural; uma relação que é amplificada pela insistência nesses numa economia de gestos a usar em determinado momento da performance.

Fig. 4 – excerto de “NÃO FAÇO IDEIA DE QUANTOS DEDOS TENHO”. vídeo de Pontogor (2’32”)

Em muitos momentos, senti estes a encontrar algo que depois iriam repetir longos períodos de tempo, até ambos acabarem quase em sincronia e depois destruírem essa sincronia para depois voltarem ao mesmo processo. 

Fig. 5 – excerto de “NÃO FAÇO IDEIA DE QUANTOS DEDOS TENHO”. gravação binaural de Luísa Nóbrega (28’19”)