No dia 26 de Abril de 2016, eu visitei a exposição individual  ‘Passagens Atlânticas’ da artista Leandra Lambert na Galeria IBEU — um espaço expositivo gerido pelo Instituto Brasil América.

 Fig. 1 – cartaz do evento

Os vários trabalhos apresentados refletem o processo da Leandra em revelar as diferentes camadas históricas, arqueológicas e geológicas que percorrem a sua relação com o atlântico. Uma relação com uma dimensão biográfica, uma vez que esta viveu no bairro de Copacabana — tendo testemunhado a transformação que ocorreu nessa parte da cidade e cuja beleza (ao contrário da percepção comum) é algo criado e engendrado por políticas de planeamento municipal.

Em ‘luvas de areia’ podemos testemunhar essa transformação física da costa de copacabana, ao mesmo tempo que podemos ouvir uma narrativa sobre a perda de alguém; sobre um possível toque mediado por areia. A utilização de som neste trabalho não só eleva uma dimensão intertextual que cruza narrativas e fatos, como abre para uma visão de ‘lugar’ que é profundamente humanista – no sentido em que Copacabana não é um lugar acabado, é algo que está em constante transformação, não só física mas como experiencial – na medida em que a experiência individual cria a cada momento de contato com essa Copacabana, uma nova Copacabana.

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Podemos ver esse ecoar subjetivo em todas as peças presentes na exposição. Em ‘calçada’, pedras portuguesas encontradas na rua, são transformados em fragmentos textuais de experiências passadas – como se as pedras falassem; como se estas fossem uma forma de capturar a experiência do quotidiano. Neste trabalho, a artista transforma-se na substância que revela essas histórias ou intenções poéticas e as organiza num monte.

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Fig. 3 – Imagem de ‘calçada’. Fotografia de Leandra Lambert

Da areia e pedra, passamos para água do atlântico para a mata atlântica com rio. Uma série de fotos de dimensão média (‘A manhã quando chega nunca é a mesma’)  mostram uma visão próxima de água – como se dessa experiência nos lavássemos. Na realidade, cada peça funciona como várias camadas da experiência da cidade, e de Copacabana.

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Fig. 4 – ‘A manhã quando chega nunca é o mesmo’ – Oceano (2013). Detalhe do políptico. Fotografia de Leandra Lambert

Em, “vestido esquisito” esta nos mostra outro elemento da praia e da cidade – os sem teto, os mendigos. Cada trabalho também nos remete para uma diferente dimensão da humanidade.

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Estes elementos são conseguidos através da experiência de andar e deambular pela cidade. O que se segue é um testemunho textual da Leandra Lambert e um excerto audiovisual da Leandra a fazer um passeio pelo calçadão de Copacabana.

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Escuto pedaços de mundo enquanto caminho. Às vezes carrego um gravador e levo sons comigo. Misturam-se ao som quase incessante da voz interna, subjetividade cheia de palavras, jorros e fluxos do pensamento, alguns pontos de estagnação e ânsia, turbulências e obsessões que procuro esvair ou que acolho com curiosidade e alguma calma, a rara calma dos observadores – rara e preciosa. Mas “observar” é um instante fugidio: focar a atenção nos sons é sair do foco objetivo, é estar imerso, sem mais “dentro” e “fora”. Não há mais paisagem, só passagens, múltiplas. Não há mais rua, apenas redes, redemoinho, turbilhão.

Os projetos-processos “Atlântica” e “Cut-up Tragedy” se iniciam com caminhadas sem rumo certo, seguindo apenas determinados estímulos sensoriais e construindo relatos ficcionalizados. Nessas caminhadas busco valorizar a escuta atenta, o acaso e a presença do outro em dinâmicas de reconhecimento e estranhamento, sem fugir a um enfrentamento com os ruídos e atritos de espaços entrópicos. Traço também relações entre o ato de caminhar, de contar uma história e de escrever.

No decorrer das minhas caminhadas, em uma prática hodológica iniciada com errâncias sonoras – que mais me imergiam na experiência da paisagem-ambiente do que em uma observação distante – logo se transformaram em derivas dos sentidos, e evidenciou-se também o surgimento de um outro olhar, a configuração de uma visualidade atravessada pela abertura plurissensual. Os sentidos tornam-se porosos e os pés traçam mapas para se perder, caminhos sem objetivos e fins certos, o corpo se mistura ao ambiente, o mapa funde-se ao caminhar e à paisagem, a imaginação ao concreto.