A seguinte conversa ocorreu a 01/05/2016. Na altura, a artista preparava a sua intervenção para a 32º Bienal de São Paulo. A conversa acabou focando no processo de criação da peça ´TabomBass´

Rui Chaves: Ficaste no Accra?

Vivian Caccuri: Sim, só lá.

Rui Chaves: Que era uma colônia inglesa, né?

Vivian Caccuri: É! Então eles falam inglês, só que falam 300 outras línguas, todo mundo fala quatro línguas, mais francês, é bem interessante, e tudo é música e dança, não é separado da vida.

Rui Chaves: E o que é que você foi lá fazer?

Vivian Caccuri: Fui começar o projeto da Bienal (TabomBass), e aí, eu tava com uma ideia já, que na hora que eu tava tentando fechar essa ideia, eu falei, ‘caraca!’, eles tinham me convidado pra ir pra Accra e eu falei ‘putz, eu vou usar Accra, porque o que eu quero fazer tem tudo a ver com isso.’… E aí outra coisa, eles não tomam café lá!

Fig.1  – TabomBass

Rui Chaves: O que eles tomam, então?

Vivian Caccuri: Chá ou nada… não tem uma… ninguém fuma também (risos), você não vê ninguém fumando, ninguém bebendo.(…) E aí eu fui pra lá com a Bienal de São Paulo, com os curadores, com o Jochen (Jochen Volz), que é o curador-chefe da Bienal e a Gabi (Gabi Ngcobo), que é sul-africana; e a Bienal tá indo pra alguns lugares do mundo tipo América Latina e África principalmente, pra ativar essas cidades que são simbólicas pra Bienal, e Accra é simbólico porque foi pra onde os escravos brasileiros foram enviados de volta: quando eles foram libertos aqui, eles voltaram a praticar o islamismo, um grupo, eles não eram de Gana, mas eles foram expulsos e o rei de Gana aceitou eles de volta e deu um pedaço de terra pra eles num lugar que na verdade é bem nobre, que é nessa favela que eu falei, mas é na frente do mar, eles têm uma relação muito diferente com o mar…Em Portugal tem uma coisa de ser o lugar de saída e vinda, né?

Rui Chaves: Exatamente.

Vivian Caccuri: Aqui tem uma coisa de contemplação, e também de ida e vinda, mas é tipo um cartão postal, lá é tipo o backyard, é um quintal, então é uma relação completamente diferente, então você tá lá, as praias são imundas e parece meio o quintal…

Rui Chaves: Ninguém vai à praia…

Vivian Caccuri: Vai! As pessoas vão, mas assim, a arquitetura de ocupação não é pra frente da praia, não se olha pro mar, se olha pra lá (continente), entendeu? Então é bem interessante. Eles construíram uma casa, esses afro-brasileiros, e eles foram chamados de ‘Tabom’, porque eles chegaram lá e tudo o que lhes era oferecido, eles falavam ‘ah, tá bom, tá bom’, então eles viraram ‘Tabom people’ (risos), aí eles fizeram uma casa lá e foi aonde foi o seminário da Bienal, nessa casa que chama ‘Brazil House’ e lá é um centro cultural, que é muito interessante, é tipo um ‘hub cultural’, acontecem um trilhão de coisas lá (…) lá é muito ligado, e todo mundo é tudo, o cara se apresenta: ‘ah, eu sou rapper, stylist e fotógrafo’, ‘ai, eu sou film maker, fotógrafo e rapper’, ‘ah, eu sou rapper, stylist e produtor musical’…

Rui Chaves: São identidades mais múltiplas…

Vivian Caccuri: É! Exatamente! Aqui a gente fica meio escolhendo o que vai falar, ‘sou música’, ‘sou artista plástica’… aí num outro momento você fala: ‘ah, eu sou pesquisadora’, entendeu? Lá não, é tudo de uma vez, eu acho muito interessante.

Rui Chaves: Isso é uma questão do teu trabalho também, né? Tu trabalhas na música, usas a música, a arte, mas tá tudo interligado, obviamente.

Vivian Caccuri: Com certeza! Depois de ter ido lá, foi legal ver o jeito que eles usam isso, porque tem uma beleza no ‘entre’ das coisas, então tem umas pessoas que são produtores musicais incríveis ou sei lá, rappers incríveis e também fazem alfaiataria, então tem uma coisa de como é que a pessoa transita entre esses lugares e como ela cruza essas coisas também, sabe? Então na verdade, lá eu me senti super bem, eu falei ‘caramba! Eu sou isso também’, e eu fui conversando e… Engraçado que a maioria das pessoas lá naquele dia era homem, nesse dia da Brazil House,,,

Rui Chaves: E que músicas que eles estão a tocar lá?

Vivian Caccuri: Azonto e Dancehall, que é uma variação. O que foi legal foi tentar ver como que era a reação deles com o funk, sabe? (…) eu tava com uma ideia de fazer um soundsystem, entendendo com a importância da presença de um soundsystem no espaço público…

Rui Chaves: Você já tem alguns exemplos do seu trabalho com soundsystem, né? O Oco

Vivian Cacuri: É! E eu tenho um soundsystem, o dub, ele tá guardado e eu vou reativar (risos), no eu aniversário de 30 anos, vai ter soudsystem! (risos) Mas então, entendendo que é uma coisa que é feita para estar no espaço público, que é na verdade onde tá boa parte do meu trabalho, que eu lido com o espaço público, as caminhadas e tal, entendendo o soundsystem como se fosse uma espécie de altar temporário, que ele é gigante, ele é massivo, mas ele é temporário, como a música é também efêmera, ele tá lá, ele marca um território, as pessoas ficam em volta dele, aquilo acontece, e depois ele é retirado, então…

Rui Chaves: Essa vai ser a intervenção na Bienal?

Vivian Caccuri: Vai ser um soundsystem só de grave, só de subwoofer, só pressão…

Rui Chaves: Esse grave vai viajar bastante, se for um soundsystem grande, vai viajar pelo parque inteiro…

Vivian Caccuri: Então, a gente não vai exagerar no volume e vai ter uma grade, que vai tocar uma mesma música, quatro vezes por hora.

Rui Chaves: Então não é muito entrusivo…

Vivian Caccuri: É, vão ter silêncios que vão ser na verdade subgraves.

Rui Chaves: Eu acho legal essa coisa do ritual de não estar sempre tocando, vai ser numa hora, como se fosse um sino, tem alguma coisa de ritualístico, o espaço, e isso de ‘olha, se você quer usufruir da peça com som, vai a tal hora’, e as pessoas vão, se deslocam, aconteceu, sai.

Vivian Caccuri: Vai ser coordenado assim: norte, sul, leste, oeste, entendeu? Tipo, aqui é 0, aqui é 15, aqui é 30, aqui é 45, a música vai tocar aqui, então vai ser muito fácil da pessoa… tipo, ‘ah, agora vai tocar nesse quadrilátero’ e aqui vai ser uma peça silenciosa de subgraves, que aí não vai ter som né, vai ser só o..

Rui Chaves: Então tem o grave e depois tem música na frequência…

Vivian Caccuri: É, as frequências do subwoofer, né, que são só as do grave. O que vai acontecer, o jeito que eu vou montar esse altar é assim: (põe o som) então as velas incorporam a batida e elas vão dançar com essa batida, tanto quando tem a música mesmo, quanto quando tem o silêncio, o subgrave, né, então é legar porque é só o grave que movimenta, então ela é realmente um…

Rui Chaves: E cada coluna, a batida é um ritmo diferente?

Vivian Caccuri: Não… o som que vai tocar lá são o bassline de músicas de artistas de gana, então você tem o synt aqui, as batidas aqui, e aí o grave aqui, eles vão me mandar isso.

Rui Chaves: O bassline? Legal!

Vivian Caccuri: Eles vão me mandar isso, só que isso não vai tocar, mas você vai entender por quê. Eles vão me mandar batidas, aí vai tocar só o grave africano no dia a dia, aí a cada 15 dias eu vou convidar artistas brasileiros pra compor em cima dos graves africanos, então vai ser um jeito de começar a provocar um híbrido, ter uma miscigenação dos graves africanos com os outros elementos que os brasileiros vão trazer.

Rui Chaves: Então o soundystem é também um lugar de espetáculo e vivência?

Vivian Caccuri: Isso! É um lugar de performance, aí sim vão vir outras caixas, dos médios e agudos, para durante a performance, mas no dia a dia é só os graves, que é na verdade o ‘core’, porque o grave ele tanto se relaciona com as harmonias, toda a parte harmônica, as vozes, o ritmo das vozes, mas também com as batidas, ele é um contraponto das batidas, então ele sintetiza todas as partes da música, então por isso que eu acho que ele é a alma do negócio, entendeu? Então faz sentido ser um altar só de grave, porque o grave que é realmente o ‘core’, o que sustenta, então lá eu já tava com isso na cabeça, eu fui pra Bienal propor isso, eu tinha tido outra ideia, eu tava com essa meio na manga, meio quase como uma estratégia, tipo botar uma outra ideia pra ser… sabe? Só pra eu também ter certeza que essa outra ideia era realmente o meu caminho… eu tô ainda num momento que agora que a coisa tá se definindo mesmo, tô num momento de Bienal, que é super importante, então foi muito legal o jeito de apresentar a ideia, como uma forma de eu entender a narrativa do meu trabalho, pra onde que ele aponta melhor e realmente foi pra coisa da música, da música dançante (risos), de tentar criar esses caminhos, porque é um caminho que eu tô fazendo, a coisa vai tocar lá de Gana, vai tocar na Bienal, então ela tá atravessando o oceano e aí os brasileiros vão fazer essa performance que vai ser transmitida ao vivo pra lá, então é meio que…

Rui Chaves: É uma troca…

Vivian Caccuri: É! É, e também meio pensando na trajetória dos Tabom, sabe? Então por isso eu dei o nome de Tabombass, porque assim, a gente não sabe o que é Tabom, mas lá é bem comum, as pessoas sabem, principalmente os artistas conhecem os Tabom, porque são os que construíram a Brazil House, então tem uma história.

Rui Chaves: É muito bonito essa coisa… Obviamente eu venho acompanhando a tua caminhada, mas ter visto justamente o teu trabalho, que é essa coisa de criar relações entre pessoas que é muito forte; teve isso na caminhada, estabeleceste uma espécie de plataforma, que tem regras, obviamente, é um jogo, eu vi só imagens, mas tinha essa coisa do grupo, ou seja, essa relação de coletividade que tem no teu trabalho que é muito forte e também é um pensamento sobre o imaginário musical, que é muito forte.

Vivian Caccuri: É, mas a dança é isso, a dança nunca tá se dirigindo pra uma pessoa soa, ela se dirige pro coletivo né? Uma música dançante é pro espaço público, e assim, a gente da cidade, classe média, cidade grande, branco, não sei o que, a gente perdeu um pouco dessa obviedade, de que a música é feita pras pessoas, pro público, e lá, indo pra Gana, eu não entrei em nenhum clube! A música dançante toca na rua! Não toca dentro dos lugares, toca também, mas…

Rui Chaves: Não tem você pagar 20 reais pra entrar e…

Vivian Caccuri: Não, toca… não sei se você viu, vou te mostrar aqui. Lá tem uma coisa que os enterros são muito importantes, são muito mais importantes do que casamento e tal, casamento é uma coisa ocidental, então… (coloca um vídeo com uma música super dançante e um soundsystem) não tem muita separação da dança com a vida, sabe? Isso que eu achei bonito… não tem o lugar da dança, o lugar da vida normativa, sabe? Sei lá, você vai num boteco… no Rio as pessoas amam boteco e eu nunca gostei muito dessa situação de boteco, de ficar falando muito e bebendo, falando, pra mim é meio… eu não consigo, eu saio… aí, lá, como tem um monte de informações novas, você fica no boteco só absorvendo um monte de coisas, aí começa a tocar uma música legal, as pessoas levantam, uma pessoa só, e não é uma dancinha, é… aí as pessoas ficam olhando, aí depois ela senta, aí daqui a pouco vem outra, e não é nada assim.. não é um teasing, é uma coisa natural, espontânea, então é por isso que eu vou reativar o meu soundsystem, aquele dub.

Rui Chaves: Pra Bienal?

Vivian Caccuri: Não, pra uma exposição aqui na ‘A Gentil Carioca’, que chama Xanadona, que é uma exposição feminista, e aí elas me chamaram pra fazer uma coisa e eu propus fazer uma festa de soundsystem pras mulheres conseguirem dançar do jeito que elas quiserem, porque elas vão estar seguras, porque elas sabem que a proposta é essa; então é uma festa de sensualização extrema, você vai poder dançar do jeito mais louco que você quiser, a proposta vai ser essa e vai ter umas aulas de dança antes, tipo, vai começar com duas aulas de dança e depois vira festa. Aí o soundsystem eu tô tentando ver se pode ser o meu, já pra começar a bater nessa tecla da música dançante, da ocupação do espaço público, mas assim, o que muitas vezes não fica muito claro são os artistas que simplesmente fazem uma festa, sabe? Porque eu acho que tem que torcer a festa, uma festa não é suficiente, tem que pegar o que é a ideia de festa, em que lugar acontece e botar isso pra frente. Às vezes pode ficar um pouco artificial no começo, porque tem uma proposta muito clara, muito dita, mas é assim e…

Rui Chaves: Mas eu acho que a proposta é válida, porque cria esse imaginário e é direto dizer ‘não, eu quero que nessa festa aconteça isso’, não é algo que é ambíguo…

Vivian Caccuri: É, porque eu acho que mudar os comportamentos é muito difícil, então você tem que… é uma estrutura a mais que você impõe, né? E a arte é um pouco isso, você entende o onde você tá, os costumes de onde você tá, o contexto onde você tá, e você tenta pegar a mão da pessoa e falar ‘vem aqui!’. Lá na África eu até falei sobre isso, eu visitei o candomblé local, que chama Ga (…) no segundo dia, porque no primeiro dia, a gente discutiu silêncio e só, com ele. Foi assim, primeiro eu cheguei lá com um guia local e ele (o cara do Ga) pediu pra eu falar o porquê de eu estar ali, aí eu falei, ‘olha, eu tô aqui porque eu vou fazer uma instalação de som e tal, expliquei do jeito que eu expliquei pra você’, aí eu falei ‘eu tô querendo entender mais como é que vocês entendem a vibração, a importância do som, da música, aonde que ela se encaixa dentro dos rituais e dos ritos de passagem, como é que é isso?’, e ele foi falando… Aí segunda feira agora vai ter um… eles banem a música por 1 mês, não pode ter música, porque é a hora que eles vão plantar o milho e a terra não pode mexer, então eles falam assim: ‘A gente observou isso, que nos lugares que a gente planta e continuam as festas e a música, ele não nasce da forma como ele nasce nos lugares que a gente faz o silêncio’…

Rui Chaves: Isso é incrível, a forma como eles pensam a música na sua relação cíclica com o resto da vida, com a economia local, com a produção de comida… é engraçado que, por essa questão temporal da música….

Vivian Caccuri: E lá foi super interessante, porque aí ele falou que depois que a coisa floresce e eles colhem o milho, aí é rave, aí é festa! Então é uma metáfora tão múltipla, todas as coisas de começar um projeto, você planta sua semente e fica quieto…(…) Tem toda uma coisa, e eles representam a divindade do mar, por isso que eles estão na beira do mar, aí eu falei ‘puta, Yemanjá!’, chama Mammy Water   (…) aí eu falei ‘nossa, no Brazil, Yemanjá é tipo, a serious business, é de longe a divindade mais festejada e a imagem dela é muito propagada’ aí ele não conhecia e pediu pra eu mostrar as fotos, aí eu comecei a mostrar a Bahia, 2 milhões de pessoas no mar e tal… aí dois dias depois eu voltei lá pra ele me mostrar os altares, porque eu tava querendo entender como é que funciona, o que é o altar, e é super interessante, porque você entra numa sala, aí tinha duas portas, uma porta você tinha que entrar e a outra era de saída, e ele podia entrar pela de saída, só ele, ele entrava pela de saída, na verdade, todas as outras pessoas tinham que fazer isso, primeiro da direita, depois da esquerda, aí você entra no altar, é tipo um lugar todo coberto com uns panos, eu não tava entendendo nada o que eram aqueles móveis, aí tinham uns chapéus pendurados, com o milho que eles plantam em vários lugares, aí uns lençóis cobrindo as aberturas que a sala tinha pra rua… aí eu falei assim ‘por que tem esses buracos?’, e ele falou, ‘é pras pessoas ouvirem a gente rezando e pra gente ouvir as pessoas também’, ‘e por que os véus?’, ‘pra gente não ser visto’, então eu achei bonito isso…

Rui Chaves: Sim, esse lugar, que tem que ter o cotidiano a entrar e ao mesmo tempo tem essa relação com o cotidiano, né? Que é super bonito.

Vivian Caccuri: Era uma salinha pequena, com uns móveis meio cobertos, os buracos em cima, não tinha nenhum adorno, só um buraco, não tinha luz direito, aí ele ajoelhava num… tem um banquinho também, que é um altar ao mesmo tempo, eles vão usando de vários jeitos… Então eu fui meio que fazendo um diálogo com eles sobre as velas, qual é o significado de queimar uma coisa, o que é isso, o derretimento, as sobras dessa queima, a gente foi conversando umas duas horas, falando sobre os elementos da instalação, e eu falei ‘eu tô aqui pra trazer os elementos da tradição Ga pra dentro do trabalho e começar a criar uma forma híbrida, que é parte das minhas ideias como artista e também fazendo referências ao que vocês fazem’… e aí, eu tava falando isso porque ele perguntou qual era o objetivo disso, se era entreter, aí eu falei que não era entreter, mas na verdade era criar perguntas nas pessoas, e ele falou ‘mas você colocar só o grave vai ficar meio desagradável…’ e eu falei ‘mas é justamente isso que eu quero fazer, isso vai talvez dar uma sensação pras pessoas de que tá faltando uma coisa e isso vai fazer tanto elas questionarem por que não tem essas outras coisas, quanto projetarem os próprios sons que elas já têm dentro delas em cima daquilo’, então eu fui falando pra ele sobre arte contemporânea, que arte contemporânea é diferente de uma arte que quer simplesmente fazer algo bonito, algo agradável, trazer enjoyment, eu falei ‘all the enjoyment comes as a consequence´, mas a coisa começa dentro das perguntas, é dentro das perguntas que essa parte inacabada gera’ e ele na hora pegou, ele foi junto, então ele falou ‘ah, tá, legal, então eu acho que você deveria usar essa vela, porque essa vela é a vela que simboliza encontro’…

Rui Chaves: Porque a vela também vai trazer esse questionamento, a presença das velas também tem esse simbolismo forte…

Vivian Caccuri: É! Que é cristão e também é pagão, ela dança, ela acaba, tem uma temporalidade, e eu acho que é a parte africana mesmo do trabalho, porque é aonde tem movimento, é aonde tem realmente um pulso, é aonde tem energia e é a visualização da parte silenciosa também, que a coisa vai acontecer, você não vai ouvir, ou vai ouvir muito pouco, mas tem um pulso ali acontecendo, então é dar visão a coisas invisíveis, a fantasmas, e acho que a religião Ga e as religiões afro-brasileiras são sobre isso, sobre essas presenças que influenciam a sua realidade, você não vê, mas elas se manifestam… e é um tema que a Bienal vai falar muito e também acho que a presença da vela vai fazer as pessoas pensarem em milhares de coisas, em dor, escravidão, fé, morte, esperança, então eu tô experimentando pra ver a quantidade de velas, eu não quero que seja uma coisa de ostentação, mas que seja mais de pontuação do que ostentação, que elas sejam mais austeras, uma pra cada caixa, do que uma coisa daquele barroco cristão, sabe? Não é isso… porque eu acho que tem gente que sabe fazer esse tipo de forma dentro de uma proposta muito mais a ver com isso, né?

Rui Chaves: E as velas, elas estão sempre presentes na obra ou é uma coisa que alguém tira e retira, quase como um ritual, alguém monta as velas, acende, como um ato performativo…

Vivian Caccuri: Se isso acontecesse seria durante as performances, essa coisa de produção, então tem toda uma coisa institucional que interfere na forma, que tem coisas que são possíveis nas ideias e na prática começam a ficar muito impossíveis, então velas que são muito pequenas, que vai ter que ter uma troca gigante, o tempo inteiro, que vão ficar sendo apagadas o tempo inteiro, mas todas essas coisas agora é o momento em que eu vou testar tudo isso e também esses momentos de vela, momentos sem vela… e também vai ter um acúmulo de cera, vai gerar uma certa bagunça, então…