Vanessa de Michelis #1

A seguinte entrevista foi realizada no dia 10/04/2016 no SESC Ipiranga

Rui Chaves: Quando estávamos em contato, tu falaste que o teu trabalho tem uma diversidade enorme e era isso que me interessava no teu trabalho, essa diversidade. Achas que essa experimentação, esse ato de viver, acaba por ditar essa diversidade no teu trabalho? Isso de trabalhar com diversas coisas, achas que tem a ver com essa necessidade de experimentação? O fato de não estar tão fixada numa ideia de identidade como artista e dizer ‘sou isso’…

Vanessa de Michelis: É… isso é um ponto a favor do trabalho por um lado, porque quem valoriza esse tipo de diversidade, de abordagem, é um prato cheio pra interlocuções, pra espaços híbridos, agora, por outro lado, é uma coisa que é um pouco complicada pra mim, porque encontrar essa linha que permeia tudo o qye eu acho que é o meu trabalho atual, tentar entender um discurso que permeie todos esses trabalhos, mas que seja um discurso que se aprofunde também neles, não uma linha superficial que conecte todos, porque isso também pode enfraquecer um pouco, pode parecer que a pessoa tá em várias coisas e ela não se envolve profundamente com nada, então tem esses dois lados, porque três linhas que são muito claras e que permeiam todos os trabalhos são… a primeira delas seria, hoje em dia, depois de quase dez anos analisando todas essas vertentes, seria o gênero, porque durante um período inicial da carreira eu era sempre a única mulher nos espaços, nas aulas de música, nos cursos de instrumentos ou cursos de eletrônica, todas as formações, oficinas, qualquer tipo de formação, os assuntos do meu interesse eu sempre era a única mulher… e hoje isso se inverteu de uma maneira que é muito bonita pra mim, porque a maioria desses lugares hoje em dia são espaços praticamente ou exclusivamente de mulheres, ou mistos com um foco absurdo na equidade de gênero e onde as mulheres são protagonistas e não invisibilizadas e minoria, então isso eu posso dizer que em 10 anos mudou bastante e eu posso dizer que eu saí de um lugar de observação, onde eu trabalhei bastante pra transformar, e saí desse lugar de observação e parti pra um lugar de protagonismo nessas cenas e hoje eu não só protagonizo algumas dessas cenas, como também faço parte de redes que trabalham na formação de outras mulheres e de atenção em todos os espaços, pra que as mulheres estejam presentes de maneira igualitária em número pelo menos, até a gente passar pra outras questões delas se sentirem a vontade de estar presentes ali de uma maneira geral, então isso é uma linha, o gênero, e estar presente em espaços femininos, feministas, ou exclusivamente de mulheres e não só mulheres, mas mulheres lésbicas, pessoas trans, as dissidências de identidade, então isso se liga novamente à experimentação, por exemplo. A outra linha que eu queria dizer era a experimentação, porém, como você analisou super bem na sua fala anterior, existe uma questão com a experimentação que é a diferença entre o experimental e o experimento, então se você chega pela primeira vez pra trabalhar numa coisa, então você tá numa zona de experimentação, mas se você trabalha com essa coisa há muito tempo, aquilo não é mais uma experimentação, é um experimento, que você começa a aplicar metodologias específicas e ter um desenvolvimento daquele experimento, a ponto de você não poder mais falar que aquilo é uma experimentação, porque uma experimentação envolve um objeto de estudo que é novo pra você de alguma maneira; depois que você passa anos experimentando com circuito, por exemplo, você não pode mais falar que é uma experimentação, então eu acho que muita gente se perde um pouco nessa estética do experimental e usa ela como desculpa pra permanecer numa superfície, que não é o meu caso, mas porque o meu interesse é com experimentar com os objetos e com os espaços e com as pessoas, então às vezes eu chego num lugar onde alguns dos pilares dessa estrutura se esgota e perde o sentido de se estar ali, então…

Rui Chaves: Eu acho que essa dimensão do espaço e das pessoas é muito claro no teu trabalho, seja através das caminhadas sonoras que tu fizeste, ou essas duas coisas estão sempre muito presentes no teu trabalho…

Vanessa de Michelis: Sim. A entre os dispositivos, os espaços e as pessoas… Bom, então acho que é um pouco isso… e os meus trabalhos mais atuais em relação a performances sonoras e a construção de instalações ou objetos, que você viu um deles específico que foi a ‘atenção’, né? Mas a ‘atenção’ é um de uma série de 4 trabalhos, que eu acho que eu não te mostrei ainda, mas são os trabalhos que eu desenvolvi durante a residência na Red Bull em janeiro, fevereiro e março de 2015 e todos esses trabalhos têm uma característica específica que é um cuidado bem grande com a apresentação (…) a fonte sonora como um experimento metodológico de investigação de um som, um objeto específico, então isso me aproximou um pouco da música contemporânea e da performance, o que foi um salto interessante pra mim, porque eu nuca tive interesse antes de me aproximar mais da música contemporânea, por exemplo, em termos de ter esse cuidado com a gestualidade, mas ao mesmo tempo, como eu tinha esgotado a música experimental em relação a redes e a espaços, porque eu me sentia muito sozinha nesses espaços, porque eu não me identificava basicamente com as pessoas e com as propostas delas de vida…

Rui Chaves: Tu achas que… há pessoas que descrevem particularmente na Noise Music (…) espécie de machismo, uma espécie de virilidade, uber virilidade, como performance nesse tipo de trabalho; achas que isso também tem existido na cena local?

Vanessa de Michelis: Eu fiz minha graduação em design e anteriormente a isso, eu sempre estudei música, mas de um jeito informal, eu estudei guitarra, estudei piano, estudei bateria, então eu sempre tive um interesse múltiplo, mas a minha família toda é de músicos, tenho uns tios maestros, mas também música popular, chorinho, todo mundo toca chorinho e quando eu era criança era esperado de mim que eu fosse um prodígio, já de nascença, então todo mundo sentava pra tocar chorinho numa roda gigante de família e eu com 5 anos batendo no pandeiro de qualquer jeito, porque eu tinha 5 anos, eu não sabia tocar e era meio uma frustração que eu não tinha nascido já tocando, e aí eu meio que sempre toquei, mas me afastei um pouco dessas expectativas da família, mesmo porque o meu interesse era punk rock, era música eletrônica e isso era bem marginal, então todo mundo já tirou essas expectativas falando ‘não, ela é de outra coisa’; eu tive várias bandas nesse período e quando eu estava na faculdade de design eu entrei em contato com design sonoro, então eu tive um professor de design sonoro que estava começando a trabalhar com software que se chamava EyesWeb e esse software é um precursor do PD e do Max e ele era desenvolvido num laboratório na Itália e meu professor estava pesquisando isso, então eu fiquei um ano fazendo as disciplinas de design sonoro, a disciplina I e II e me candidatei pra ser a monitora da disciplina, aí virei a monitora da disciplina e esse professor foi embora fazer o doutorado dele em Ghent na Bélgica e entrou um poeta, um artista que trabalhava com poesia sonora e com poesia falada e com som, no lugar desse professor, então esse artista, que é um poeta muito importante em Belo Horizonte chamado Ricardo Aleixo (…) que trazia outra abordagem, de poesia concreta (…) então a gente começou a trabalhar muito mais poéticas sonoras e performances, a trazer a voz e a usar muito o estúdio, porque nessa época construiu-se um estúdio, pra disciplina de design sonoro dentro da faculdade, e eu comecei um projeto junto com esse professor, o Ricardo Aleixo, da gente criar um núcleo de design sonoro dentro da faculdade (…) a gente realizava projetos nossos, basicamente, lá (pausa), então nós criamos o núcleo de design sonoro e o laboratório e ninguém utilizava o estúdio, exceto nós, pros nossos fins particulares e a faculdade de moda, que criava trilhas sonoras pros desfiles lá, então nessa época, eu fiz cursos de home studio e de produção musical, pra poder trabalhar com gravação, mixagem e masterização e mesas, microfones, cabos, então eu me profissionalizei bastante em relação a essa área técnica do áudio…

Rui Chaves: Que na altura devia ter só homens também, né?! Nesses cursos…

Vanessa de Michelis: Só homens! Só! E só homens roqueiros, porque ninguém sabia direito o que era foley, fazer efeitos sonoros, e o estúdio de design sonoro funcionava basicamente pra sonoplastia, pra disciplina de vídeo e design e pra trilha sonora, pra disciplina da moda, aí a hora que passou essa fase, quando eu me formei eu fiz uma monografia sobre design sonoro, que foi a primeira monografia de Belo Horizonte, de Minas Gerais e talvez até do Brasil, não sei, de graduação sobre design sonoro, porque não existia design sonoro nessa época, ninguém sabia o que era, existia publicidade, existia engenharia de áudio e existia música e a faculdade que eu estudei era a única que tinha design sonoro no Brasil, dentro da carga horária; um pouco antes disso, durante a faculdade, eu fiz outra faculdade paralela, de artes plásticas, e eu estudei dois anos e meio e perdi completamente a paciência com as disciplinas práticas, eu fazia só as teóricas (…) e tinha uma disciplina teórica que a gente estava estudando um livro do Kandinsky, que é o ‘Ponto e linha sobre o plano’, que é um livro clássico das artes plásticas e do design, que ele fala basicamente como o ponto é estrutura básica de formação da imagem e de direcionamento do olhar e como você mover esse ponto numa tela, como você movê-lo bidimensionalmente e tridimensionalmente através da perspectiva, e como que você, gerando mais e mais pontos, você começa a ter noção de linha, de espaço, disso, daquilo, então eu fiz uma gravação de uma leitura de um trecho desse livro e todos os exemplos eu fazia sonoramente, então assim, o ponto na tela, no meio era um som centralizado, o ponto se movia pra esquerda, eu trabalhava o panorama, aí vários pontos eu texturizava a voz pra fazer isso, gerava perspectiva, afastava o som com reverb…

Rui Chaves: Era um trabalho multicanal?

Vanessa de Michelis: Trabalho multicanal! Então isso foi bem legal e quando eu mostrei isso pra minha professora, ela praticamente chorou, porque era muito fora da caixinha, então essa professora ficou tão feliz que ela organizou uma mostra, um evento na faculdade, pra que eu apresentasse essa peça no teatro da faculdade, então ela chamou todos os períodos, todas as turmas, ficou todo mundo sentado, umas 100 pessoas, e a gente apresentou em quatro canais, que eu chamei um amigo pra me ajudar na difusão…

Rui Chaves: Você fez a difusão em tempo real?

Vanessa de Michelis: É! Mas a peça era gravada, eu não fui falando, né… os canais. Então esses foram exercícios que são muito importantes pra minha formação, porque eu tava inventando uma coisa pra mim, no meu mundo, nas minhas referências essas coisas não existiam…

Rui Chaves: Isso foi antes de ter contato com artistas que desenvolviam esse tipo de trabalho? Ou foi uma coisa que na altura, já estavas a pesquisar e já tinhas um conhecimento da prática das coisas que existiam semelhantes ao que estavas a fazer?

Vanessa de Michelis: Outra coisa importante pra dizer é que durante o núcleo do laboratório de design sonoro, eu fiz uma bibliografia, que teoricamente seria pra faculdade, mas a faculdade não quis comprar os livros, aí eu fui comprando, eu mesma, uma bibliografia pro laboratório de design sonoro, e essa bibliografia era constituída de livros que são fundamentais na arte sonora, mas eu não sabia, eu ia comprando o que eu achava legal (…) e eu fiz umas viagens também, então era uma bibliografia que tinha vários questionamentos sobre escuta, sobre arte sonora, sobre paisagem sonora, mas eu não conseguia linkar as coisas, eu não me via como uma artista nem nada, até então, pra mim, eu estava experimentando nas artes plásticas, ou fazendo design sonoro (…) eu tinha abandonado os instrumentos, porque eu não conseguia achar pessoas pra tocar comigo coisas que eu queria tocar, e todas as pessoas ao meu redor eram homens e ou virtuosos da música erudita ou virtuosos do punk rock, e aí eu fui pra música eletrônica (…) eu fui a primeira DJ mulher de BH também, e isso tem mais de oito anos, bastante tempo, e aí eu toquei durante dois, três anos, mas esse fim dessa temporada de mais ou menos dois, três anos, eu já estava me formando na faculdade, eu já pensava bastante em design sonoro, em experimentação sonora, e eu comecei a experimentar bastante na pista e a pista esvaziou (risos), não rolava, não rolava de misturar circuit-bending com os vinis… antes eu era uma DJ que fechava a noite e eu passei a ser uma DJ que abria (…)o beat ficava mais slow, slow beat, ambiências, até que o beat desapareceu e aquele não era mais o lugar pra mim, então essa série de coisas é bem engraçada (risos) (…) eu tenho a sensação que é porque essas pessoas têm a experimentação como um filtro aplicado especificamente a uma área da vida delas, não é uma condição intrínseca da existência dela no mundo, experimentar, é uma ferramenta em uma área da vida que ela usa aquilo, ela não precisa da experimentação pra navegar na vida… sou lésbica, latino-americana, vivi em Belo Horizonte, no Brasil, onde as coisas, naquela época, no início da minha juventude, eram muito ruins pras mulheres, então a experimentação pra mim sempre foi uma condição, eu sempre era a menina que queria jogar futebol e ficar sem camisa e brincar suja na grama, então experimentações num nível muito básico de existência… se eu fosse cientista ou astrônoma, provavelmente eu estaria experimentando também nessas áreas, mas a condição específica do som pra mim era o poder que ele tinha de mover alguma coisa na estrutura cerebral das pessoas que nunca tinham sido movidas, então realmente eram hiperlinks nos cérebros das pessoas que destravavam algum tipo de bloqueio, e isso pra mim é o mais interessante, como o som transcende os links racionais que você faz de leitura do mundo e de compreensão das coisas.

Rui Chaves: Acho que, as conversas que eu tenho tido com os artistas, acho que é uma coisa que pra mim fica claro, tem a ver com a espécie do tempo, da pessoa se dar atenção e presença da escuta, porque se você faz uma proposta de uma performance, a pessoa está lá, temporalmente, do inicio ao fim, e dar esse tipo de atenção é um tipo de percepção que é diferente a tantas outras experiências, acho que essa percepção, essa condição da presença é que tem essa coisa super primal, super…

Vanessa de Michelis: É, total! É meditativo, mas é primitivo ao mesmo tempo, então esse poder é uma coisa que me move e talvez, uma questão de estar um pouco à margem da música contemporânea ou até da música experimental, porque pra mim não faz tanto sentido apresentar algumas propostas de escuta ou ideia pra pessoas que não têm uma abertura pra uma escuta mais mágica, então assim, quando a escuta se torna um lugar completamente territorializado, que a pessoa já não consegue sentir ou propor afetos com aquilo, se relacionar com aquilo de uma maneira afetuosa, pra mim já não interessa mais, porque daí fica uma coisa extremamente técnica e eu tenho apreciação técnica, claro, mas eu me interesso muito mais pela parte ritualística, pela parte afetiva, pela dimensão relacional, por você trocar com as pessoas que estão escutando ou soando ali… acho que é isso, em relação a essa trajetória. Dando um pulo agora, em relação à proposta da ‘A Tensão’, que foi a peça que você viu no FIME, foi a primeira vez em muito tempo que eu me senti à vontade pra estar no meio da música experimental de novo, de uma maneira mais formal, porque eu senti que eu estava investigando uma coisa com essa peça, que era um afeto novo, que tinha um potencial naquela peça de subverter algumas estruturas na música experimental aqui, que se tornaram muito rígidas, por exemplo, o volume, as relações de poder, então, por exemplo, existe uma certa expectativa ali ao longo de todo esse tempo, pelo menos pra mim, enquanto mulher, que pelo fato de você ser mulher, você sempre tem que ir além em relação a algumas das coisas pra você ser reconhecida, então você tem que ser melhor no seu instrumento do que todos os homens pra você ser reconhecida, ou se você faz noise, você tem que fazer o noise mais radical, mais extremo, então você tem que ir mais além, porque se você faz musica experimental mais baseada num discurso de texturas, de ruídos, disso, daquilo, você corre o risco de ser mais delicada, e se você for delicada, é óbvio que é uma escolha de mulher, então o seu gênero ele sempre tá jogando ali, pesando, porque um homem tem a liberdade de fazer delicado ou… agora, mulher, se ela faz delicado, ela faz delicado porque ela é mulher, e se ela faz muito radical e muito extremo, ela deve ser lésbica, ou ela deve ser gótica, alguma coisa estranha ela deve ser… e eu me lembro, no caso das bandas, os homens têm banda de surf music, banda de forró, banda de metal, as mulheres, elas têm uma banda de mulheres, então vai tocar uma banda ali ‘ah, vai tocar uma banda de metal, uma de rock e uma de meninas’ (risos), então é uma armadilha que muitas mulheres caem, porque é uma das únicas ferramentas que é dada pra você, você tem que ser mais inteligente ou você tem que ser melhor, e na verdade não só das mulheres, mas de qualquer marginalidade, se a pessoa é negra, pra ela ser legitimada à vezes ela sente isso, porque ela tem que provar pra todo mundo que ela é inteligente e que ela não tá ali só porque ela entrou pela cota, então ela sempre tem que… e, de uns dois anos pra cá, eu decidi parar de achar que eu tinha que fazer o noise mais extremo, que eu tinha que fazer o sintetizador mais legal ou que eu tinha que ser a melhor guitarrista, porque eu era mulher, então…

Rui Chaves: Mas isso advém do machismo que existe na cena musical? Não só o machismo, mas também certas ideias rígidas a cerca do que é virilidade, quem pode ser viril, quem não pode ser viril, o que é masculinidade, o que é feminilidade, ideias super rígidas do que as coisas podem ser…

Vanessa de Michelis: Isso! E pra facilitar as coisas, porque sei lá quem vai ouvir isso, podem ser pessoas que não estão muito familiarizadas com esses termos, mas eu acho que o machismo e o sexismo e a rigidez em relação ao que é masculino e feminino, eu queria pensar nisso assim: o machismo como a cultura do machismo, não o machismo como os homens, então vamos falar ‘a cultura do machismo’, porque o machismo é uma cultura cujos representantes, quase que naturalmente, são os homens, mas também as mulheres podem ser machistas, mas eu não quero falar isso, eu quero falar a cultura do machismo, porque essa discussão ‘ai, as mulheres também são machistas, os negros também são racistas’ é uma discussão ridícula, é você confundir a força do opressor com a resistência do oprimido e a confusão entre esses papeis, então… enfim, a cultura do machismo é a responsável por isso, mas a cultura do machismo só existe por causa da definição de alguns papeis, das identidades de gênero… muitos filósofos e filósofas hoje falam que o feminismo é a corrente filosófica mais importante da atualidade, junto com os estudos de gênero, porque essas vertentes são as únicas realmente capazes de transformar o pensamento e a cultura hoje.

Rui Chaves: Nesse sentido daquilo que tu propões ser a coisa mais distante possível de uma escuta reduzida, porque é uma escuta política também, tem uma coisa de ritual, imersiva, mas também é uma escuta que é política.

Vanessa de Michelis: É uma escuta política. Mas eu não tenho nada contra uma escuta reduzida, inclusive eu acho fundamental, eu acho que a diversidade, a escuta rizomática vai passar pela reduzida, depois ela vai pra corporal… então eu acho que o inter-relacionamento de todas essas coisas, ao invés da qual disputa de qual é a mais poderosa e a melhor… mas ao mesmo tempo eu entendo que a medida que cada uma vai surgindo, ela surge muito pela força de oposição em relação a alguma coisa que aconteceu ali que você precisa gerar um contraponto, mas quando o tempo passa, a gente não precisa mais… mas é claro que um trabalho específico que investiga a escuta reduzida, pode ser um trabalho maravilhoso, mas eu acho que alguns dos problemas são que alguns têm mais valor do que outro, e o FIME foi um festival muito importante, porque eu acho que pela primeira vez no Brasil, na história da música experimental, houve uma distribuição do poder entre os curadores, entre os discursos, entre as diferentes linguagens, tinham diferentes vertentes da música experimental e todo mundo assistindo, dando o devido valor às diferentes vertentes da música experimental… quer dizer, nem todo mundo dando o devido valor, mas era sugerido dar-se o devido valor a todas as propostas, mas existem pessoas que vão favorecer o erudito, o contemporâneo, a investigação instrumental x, aí você chega lá com outra coisa… mas o que foi bacana da minha peça foi que pessoas de todos os universos vieram falar comigo, surpreendentemente ela atingiu as pessoas da música erudita, que se satisfizeram com o cuidado, com a gestualidade e com a apresentação formal de ter movimentos e partituras, então isso satisfez as pessoas (risos); as pessoas do noise gostaram da ideia da escuta minimalista do noise eletromagnético, então foi uma sacada muito importante pra mim e aparentemente pro tempo, porque eu queria fazer um statement contra essa estrutura de poder da música experimental que é a opressão sonora, a massividade do volume e sobretudo em relação a mim mesma, porque eu achava que eu precisava investigar esse caminho pra ser ouvida e que eu precisava do volume, mas depois que eu me mudei pra São Paulo, eu me cansei absolutamente do volume, o volume me incomoda absurdamente, depois que eu me mudei pra cá eu parei de estudar noise e fui estudar piano, porque eu não aguentava mais a artificialidade dos sons, a industrialidade dos sons, o volume, a massa sonora constante, a falação, as máquinas, então pra mim essa escuta reduzida quanto ao volume era essencial, criar uma peça cuja atenção, a escuta fosse uma escolha da pessoa e não um automatismo, que você senta num auditório e automaticamente todo mundo vai ser inundado por aquela massa sonora e aí às vezes você nem consegue se colocar no estado da escuta, porque ela já tá tão dada que você não entra naquela transdução, o transe ali do fantasminha que a gente tava falando, o espaço do insight ali, que é um meio termo entre a atenção, a dúvida, o pensamento, o afeto, o medo, porque estar numa sala com o volume baixinho, as pessoas ficam com medo de não escutar também, o medo de não entender né, também tem isso, e aí eu consegui encontrar um lugar muito rizomático pra essa peça, e aí eu achava que valia a pena enfrentar as estruturas propondo uma coisa, e a experimentação teve mais a ver com o discurso mesmo, do que com o som em si e isso foi muito claro pras pessoas, porque as pessoas me deram feedbacks impressionantes e todos relacionados à surpresa,