{"id":1805,"date":"2018-06-12T13:55:02","date_gmt":"2018-06-12T13:55:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nendu.net\/?p=1805"},"modified":"2018-06-19T15:28:58","modified_gmt":"2018-06-19T15:28:58","slug":"pontogor2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nendu.net\/?p=1805&lang=pt","title":{"rendered":"Pontogor#2"},"content":{"rendered":"<p><em>A seguinte entrevista foi realizada a 30\/03\/2016<\/em><\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Eu queria que tu falasses um pouco do teu percurso&#8230; Eu sei que tu tiveste uma banda e tamb\u00e9m fizeste grafite, ou seja, o teu percurso tem um certo tipo de diversidade que eu gostaria muito que tu falasses (&#8230;) e tamb\u00e9m comentasses sobre o que tu est\u00e1s a fazer agora, influ\u00eancias ou coisas que te marcaram&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> \u00c9 engra\u00e7ado, porque esse percurso ele \u00e9 um pouco esquisito at\u00e9 que ele se conforma numa coisa, mas na verdade eu acho que um monte de detalhes fazem bastante sentido, porque na verdade antes de come\u00e7ar a estudar arte de algum jeito um pouco mais organizado, eu tive uma banda com uns amigos quando era adolescente, era uma banda meio de punk-rock, era uma banda um pouco tosca, um pouco suja&#8230; e tem uma parte curiosa disso que de repente conecta com o hoje, \u00e9 que na \u00e9poca eu n\u00e3o tinha a menor ideia de John Cage, m\u00fasica eletroac\u00fastica&#8230; Eu n\u00e3o tinha a menor ideia de nada disso, eu ouvia Ramones, The Clash, sabe? E eu tinha umas coisas que&#8230; a gente tocava muito mal, era horr\u00edvel, mas uma coisa legal \u00e9 que era muito bruto o som, ent\u00e3o tinha uma coisa meio de energia, mas n\u00e3o era muito refinado, sabe? Ent\u00e3o era tipo uma pedrada, uma tijolada assim, era muito r\u00e1pido e muito intenso&#8230; E eu ficava propondo umas coisas pros caras da banda, isso&#8230; sei l\u00e1, tem muito tempo, mas eu ficava propondo umas coisas tipo \u201cn\u00e3o, vamos fazer umas m\u00fasicas sem letra, vamos s\u00f3 ficar berrando, vamos fazer umas coisas onde a linha de baixo e a linha de guitarra seguem caminhos completamente diferentes, sem nenhuma conex\u00e3o mesmo, ou vamos, sei l\u00e1, tocar umas m\u00fasicas que n\u00e3o \u00e9 nada mais do que cada um fazer qualquer coisa que der na telha\u201d e os caras n\u00e3o topavam muito, eles achavam rid\u00edculo, absurdo, sabe? E a\u00ed anos depois eu fui descobrir que n\u00e3o, as pessoas faziam isso e que era legal! (risos) Era uma coisa que historicamente j\u00e1 vinha sendo feita h\u00e1 sei l\u00e1, cem anos. E a coisa do grafite tamb\u00e9m \u00e9 engra\u00e7ada, porque na verdade eu sempre desenhei, pintei e meio que nessa mesma \u00e9poca que eu tocava com essa banda eu acabei colando com uma galera do grafite e comecei a grafitar e a\u00ed, dentro da atmosfera do grafite tinha uma coisa de eu n\u00e3o gostar tanto das coisas mais realistas, e gostava mais quando era umas coisas mais sujas, que poderiam at\u00e9 parecer meio impressionistas, mas essas duas coisas (a banda e o grafite) me deram umas ferramentas que foram muito \u00fateis no meu ingresso no mundo da arte um pouco mais consciente. A banda e o grafite foram duas coisas que voc\u00ea est\u00e1 fazendo uma coisa ao vivo ou est\u00e1 fazendo uma coisa na rua, ent\u00e3o isso tira um pouco da media\u00e7\u00e3o entre obra e espectador, t\u00e1 tudo muito na hora, t\u00e1 tudo muito colado. As duas coisas tamb\u00e9m eram meios que sugeriam uma exposi\u00e7\u00e3o muito r\u00e1pida e muito explosiva: \u00e9 isso, voc\u00ea vai fazer um show, umas puta caixas, voc\u00ea t\u00e1 tocando alto, as pessoas ouvem de longe, o grafite \u00e9 grande, ele t\u00e1 na rua, as pessoas veem&#8230; isso foi criando um certo jeito de lidar com as coisas que continuou bastante e tinha uma coisa tamb\u00e9m que em ambos os casos, o improviso estava muito presente, porque na banda a gente n\u00e3o ensaiava muito, era uma coisa super desleixada, era at\u00e9 na ordem inversa: ao inv\u00e9s de ensaiar, fazer as m\u00fasicas e marcar um show, era uma coisa assim, marca um show, a\u00ed depois a gente resolve o que vai fazer, ou tipo, vai na rua pintar, mas n\u00e3o tem uma coisa muito planejada, voc\u00ea vai fazendo. Ent\u00e3o a coisa do improvisar era muito presente tamb\u00e9m, e a\u00ed aconteceu uma coisa que fez os caminhos se embolarem que eu entrei pra faculdade de pintura da UFRJ, que \u00e9 uma faculdade que ainda tem o nome de Belas Artes, ent\u00e3o de repente eu entro nesse ambiente, onde a galera ainda t\u00e1 querendo fazer quadro e tal, uma coisa bonita&#8230; E a\u00ed, nessa entrada no ambiente da universidade, uma coisa deu uma virada muito r\u00e1pida, que foi, eu muito rapidamente come\u00e7ar a andar com uns caras que estavam prestes a se formar, por afinidades de um jeito de fazer as coisas: o grafite, a banda&#8230;e a UFRJ \u00e9 um lugar muito&#8230; hoje em dia eu n\u00e3o sei muito bem como \u00e9 que t\u00e1, foi mudando umas coisas e isso tem tempo, eu entrei na faculdade em 2001, 2002&#8230; Mas naquela \u00e9poca estava muito esculhambada a faculdade e o que a gente tinha de atelier de pintura era uma esp\u00e9cie de galp\u00e3o com um mezanino, que era bem grande, s\u00f3 que era meio desorganizado, as coisas eram meio soltas (&#8230;) os materiais eram todos caqu\u00e9ticos, os cavaletes, as estruturas, era tudo um bando de coisa dos anos 60, 70, quebradas&#8230; mas por outro lado isso era muito bom (..) a gente fazia as coisas e ningu\u00e9m tinha muito como&#8230; as pessoas at\u00e9 tentavam \u00e0s vezes, mas n\u00e3o tinha muito como travar a gente, porque j\u00e1 estava tudo t\u00e3o esculhambado&#8230; e eu comecei a andar com umas pessoas&#8230; sei l\u00e1, o <a href=\"https:\/\/www.speridiao.com\/\">Gustavo Speridiao<\/a>, o <a href=\"http:\/\/www.carloscontente.com.br\/bio\/\">Carlos Contente<\/a> (&#8230;) fez a gente entrar numa esp\u00e9cie de movimento que era gerado por catarse e um jeito mais espont\u00e2neo e mais largado, quase dada\u00edsta assim&#8230; e isso sim eu considero que foi a minha forma\u00e7\u00e3o em arte&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Sem querer interromper a tua linha de conversa, mas essa natureza do contato com as pessoas e a colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tu mant\u00e9ns bastante na tua pr\u00e1tica, parece que \u00e9 uma coisa que ainda est\u00e1 muito forte no teu trabalho&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> E eu acho que vai se manter, porque eu n\u00e3o tenho&#8230; H\u00e1 pouqu\u00edssimo tempo, semanas atr\u00e1s, eu fiz uma brincadeira com um amigo e falei que eu vou montar um portf\u00f3lio dos meus trabalhos e um portf\u00f3lio dos trabalhos que eu fiz com algu\u00e9m, porque na verdade \u00e9 t\u00e3o grande a quantidade de colabora\u00e7\u00f5es, que talvez eu me arrisque a dizer que eu tenho mais trabalhos feitos colaborativamente do que sozinho&#8230; e isso se d\u00e1 de diversas formas, porque eu nunca tive um grupo, um coletivo de arte, nunca foi dessa forma (\u2026) Se a gente for pegar esse in\u00edcio meu com o grafite e com a banda, ele j\u00e1 explica muita coisa. O grafite normalmente a gente faz junto com algu\u00e9m, \u00e9 muito raro a galera sair pra grafitar sozinha, e a banda tamb\u00e9m se d\u00e1 por um grupo. Tem uma coisa que nesse per\u00edodo j\u00e1 da faculdade, a gente fazia muita coisa que davam um certo trabalho, certos ac\u00famulos de coisas, ou tinha que pregar um neg\u00f3cio n\u00e3o sei aonde, algumas coisas, propostas de uns e de outros que davam um certo trabalho fazer sozinho; e como tava todo mundo l\u00e1, e como n\u00e3o era nada profissional, era mais \u201cah, t\u00e1 todo mundo l\u00e1, ent\u00e3o vamos a\u00ed fazer esse neg\u00f3cio a\u00ed\u201d, ent\u00e3o sempre funcionou de um jeito que era: algu\u00e9m propunha uma coisa, quem t\u00e1 a fim de ajudar, ajuda. \u00c0s vezes eu propunha alguma coisa, \u00e0s vezes outro propunha, e isso foi se tornando uma coisa cara pra mim, eu comecei a olhar pra isso com uma import\u00e2ncia maior do que s\u00f3&#8230;. n\u00e3o \u00e9 exatamente uma ideia de necessidade, \u00e9 quase uma ideia mais exagerada do que necessidade, \u00e9 como se eu achasse um tanto imposs\u00edvel essa ideia de fazer as coisas sozinho, ent\u00e3o sempre pareceu mais l\u00f3gico, fazia mais sentido chamar algu\u00e9m pra fazer alguma coisa junto, ou querer participar, ent\u00e3o v\u00e1rias vezes o que eu fiz foi entrar em certas ondas ou sugerir que as pessoas entrassem na minha onda (&#8230;) Eu fa\u00e7o coisas sozinho, porque tem horas que n\u00e3o tem ningu\u00e9m perto, mas&#8230; (risos)<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Outra coisa que tu mencionas-te quando estavas a falar da tua banda, tinha a ver com a ideia de brutalidade (\u2026) at\u00e9 que ponto e particularmente essa ideia de energia continua a percorrer o teu trabalho?<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> Eu acho que isso se mant\u00e9m bem forte e isso foi uma coisa que surgiu num momento onde eu comecei a perceber que quando eu pintava, na verdade eu n\u00e3o tava muito preocupado com o resultado, eu tava preocupado com como eu fazia pra pintar, ent\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 a ideia do processo em si, mas o tipo de transforma\u00e7\u00e3o que acontecia em mim ao me mover e a\u00ed isso come\u00e7ou a ficar mais exagerado, porque quando eu comecei a trabalhar com v\u00eddeo e com som, eu for\u00e7ava essa barra, pra exagerar essa presen\u00e7a f\u00edsica, ent\u00e3o eu podia estar tocando guitarra, mas a ideia n\u00e3o era o som da guitarra, a ideia era como meu bra\u00e7o se movimenta pra bater nas cordas, como que eu movendo a guitarra fa\u00e7o som&#8230; isso se tornou muito forte e continua com uma presen\u00e7a muito grande principalmente nas performances, mas o que eu fui talvez entendendo nos \u00faltimos tempos, \u00e9 que de algum jeito, em alguns trabalhos meus, e a\u00ed talvez nem todos sejam de som, eu comecei a ver que dava pra fazer pra dar uma certa empurrada pro p\u00fablico ter esse tipo de presen\u00e7a, ent\u00e3o por exemplo, o trabalho do CH\u00c3O , l\u00e1 da Oswald (<a href=\"http:\/\/janainawagner.com\/12119055\">Oficina Cultural Oswald de Andrade<\/a>), \u00e9 um ch\u00e3o inclinado, s\u00f3, mas a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o das pessoas em cima de um ch\u00e3o inclinado, muda. Ent\u00e3o eu fui tentando, pra al\u00e9m da energia que eu colocava em mim, tentar fazer com que as pessoas passassem um pouco pelos problemas&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Eu fiquei completamente com essa sensa\u00e7\u00e3o, antes de falar contigo, eu fui l\u00e1 ver a instala\u00e7\u00e3o e senti exatamente isso, achei que a rampa tinha uma dimens\u00e3o performativa tamb\u00e9m, quase como se fosse um palco.<\/p>\n<p><strong>Pontogor<\/strong>: Sim, \u00e9 um jeito de colocar as pessoas dentro de um espa\u00e7o, ela \u00e9 parte real do trabalho, mas isso se d\u00e1 tamb\u00e9m em outros trabalhos, muito mais relacionados com som, que era o trabalho que eu te expliquei outro dia que o nome \u00e9 \u201cDeus, Diabo e Homem\u201d , que eram tr\u00eas caixas de som dentro de uma piscina vazia. Eu tenho o som gravado, d\u00e1 pra ouvir em casa isso, ok, mas n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa, porque a disposi\u00e7\u00e3o das caixas no espa\u00e7o, a ac\u00fastica do lugar, a reverbera\u00e7\u00e3o do som, tudo isso fazia com que o som se transformasse o tempo inteiro, dependendo de onde as pessoas que estavam ouvindo estavam andando ou estavam paradas, sentadas em p\u00e9 de um lado, do outro, ent\u00e3o o que eu comecei a tentar fazer em alguns trabalhos foi colocar essa sensa\u00e7\u00e3o que normalmente estava mais exagerada em mim e propor ela pro p\u00fablico, colocar pra ele, quase como se eu falasse \u201cn\u00e3o adianta voc\u00ea querer pensar no trabalho contemplativamente, voc\u00ea tem que de algum jeito tentar interferir nele, nem que seja andando, ou se sentindo incomodada, porque t\u00e1 inclinada no espa\u00e7o\u201d. \u00c9 engra\u00e7ado, porque, de algum jeito, um pouco at\u00e9 simples e bobo, a pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o desses trabalhos me gera uma energia, faz com que eu tenha que chamar gente pra fazer coisas, ent\u00e3o parece que desde o come\u00e7o do processo sempre tem fundamentalmente essa ideia de que alguma coisa tem que ser mexida.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Tu podes falar um pouco mais do teu trabalho que fizeste na <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=ihsGxphz5NY\">piscina<\/a>? Que isso fez parte do projeto de \u201cperman\u00eancias e destrui\u00e7\u00f5es\u201d, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1806\" src=\"http:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pontogor_piscina.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pontogor_piscina.jpg 800w, https:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/pontogor_piscina-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p><strong>Pontogor<\/strong>: Ah, isso foi muito massa, porque o que aconteceu foi que o Jo\u00e3o Paulo, que \u00e9 o curador dessa s\u00e9rie de trabalhos que aconteceram dentro desse projeto \u201cperman\u00eancias e destrui\u00e7\u00f5es\u201d entrou em contato comigo falando que queria me chamar, porque achava que tinha a ver meu trabalho com essa ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os abandonados ou degradados, s\u00f3 que eu acho que quando ele me chamou ele n\u00e3o tinha a menor ideia do que eu ia fazer, se eu ia fazer um trabalho com som, se eu ia colocar alguma coisa, um objeto&#8230; no caso ele me mostrou as fotos de alguns dos lugar e quando eu vi a piscina eu falei: \u201ccara, esse lugar \u00e9 muito bom, acho que a\u00ed eu vou fazer um trabalho bom.\u201d. Eu n\u00e3o podia ter essa escolha exatamente, mas eu dei uma for\u00e7ada, porque dava pra ver que aquilo l\u00e1, por si s\u00f3, j\u00e1 era muito incr\u00edvel. Dava um pouco de vontade de ficar ali, ent\u00e3o eu tive uma vontade inicial que era estar nesse lugar. E a\u00ed quando eu fui na piscina, era um neg\u00f3cio impressionante, era uma piscina de 25 metros por 10 metros e 3,5 mais ou menos de profundidade. Ela teve um problema de vazamentos e tal, que fez com que ela tivesse que ser esvaziada, desativada, mas nesse processo eles tentaram usar manta asf\u00e1ltica nas paredes da piscina e ela ficou com uma apar\u00eancia absurda, parecia, sei l\u00e1, umas pinturas do Richard Serra num lugar enorme, tudo preto, meio tosco, desgastado. E essa piscina, ela foi constru\u00edda de um jeito que \u00e9 muito maluco; Santa Teresa \u00e9 um morro e ela sai desse morro e \u00e9 apoiada por pilastras, ent\u00e3o ela tem uma vista absurda do Rio de Janeiro. Quando eu fui no lugar a primeira vez, eu tive um certo problema, porque eu queria estar naquele lugar, mas eu queria estar naquele lugar por causa da piscina, n\u00e3o por causa da paisagem. Quando voc\u00ea chega na piscina, voc\u00ea j\u00e1 v\u00ea a vista incr\u00edvel, \u00e9 maravilhoso, a vontade que d\u00e1 \u00e9 circundar ela, andar pelas bordas dela at\u00e9 o final, pra poder olhar a vista, e a\u00ed eu pensei isso, eu vou for\u00e7ar a barra para que o p\u00fablico fa\u00e7a isso. E a\u00ed a primeira ideia que eu tive antes de pensar em som, era colocar uma escada, pra que as pessoas conseguissem descer na piscina, s\u00f3 que essa escada era colocada no final da piscina, pra quem estava chegando, ent\u00e3o a pessoa ia ter que andar, dar a volta na piscina toda, pra no final descer a escada; esse movimento de descer a escada tinha uma certa ideia de nega\u00e7\u00e3o daquela paisagem: depois de voc\u00ea entrar num lugar que \u00e9 super bonito e voc\u00ea encontra uma vista maravilhosa do Rio de Janeiro, voc\u00ea \u00e9 obrigado a falar \u201cn\u00e3o, agora eu n\u00e3o quero mais ver a vista, agora eu quero descer e entrar naquele lugar super estranho, uma esp\u00e9cie de calabou\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Isso explica tamb\u00e9m, foi uma coisa que eu fiquei a pensar&#8230; me corrija se n\u00e3o tiver&#8230; mas quando eu vi a foto eu pensei que tu puseste as colunas num tri\u00e2ngulo&#8230; eram tr\u00eas colunas, n\u00e9? Ou eram mais colunas?<\/p>\n<p><strong>Pontogor<\/strong>: Eram s\u00f3 tr\u00eas caixas de som.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Mas era um tri\u00e2ngulo?<\/p>\n<p><strong>Pontogor<\/strong>: A posi\u00e7\u00e3o era triangular, sim.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Eu queria te perguntar, porque eu achei bonito, \u00e9 que tu decidis-te n\u00e3o ocupar a piscina inteira com caixas, agora eu pensei porque, se tivesse a ocupar a piscina inteira com caixas, as pessoas n\u00e3o iam entrar na piscina, ia ficar ali s\u00f3 a observar \u201cah, que bonita a piscina\u201d, ent\u00e3o tu realmente faz com que a pessoa fa\u00e7a esse trajeto e a coisa mais bonita \u00e9 que tenha espa\u00e7o pra decidir\u00a0 \u201ceu posso ir daqui, posso ir do outro lado da piscina desfrutar de outra experi\u00eancia da piscina uma vez s\u00f3, o eco que t\u00e1 ali, que \u00e9 legal.\u201d.<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> N\u00e3o, \u00e9 muito fundamental a coisa de botar as caixas de forma triangular, primeiro porque tinha um jogo geom\u00e9trico que me interessava que era: a piscina \u00e9 retangular, dentro dela eu coloco um tri\u00e2ngulo, e o movimento das pessoas organicamente forma c\u00edrculos ou espirais; essas tr\u00eas formas geom\u00e9tricas simples: quadrado, tri\u00e2ngulo, c\u00edrculo, me interessavam, e era um jeito de eu jogar com as tr\u00eas formas, uma j\u00e1 estava l\u00e1, outra eu coloquei e outra eu n\u00e3o tenho como saber o que vai acontecer, eu s\u00f3 tenho como sugerir. Tinha uma outra raz\u00e3o tamb\u00e9m de colocar essas caixas triangularmente e n\u00e3o nas bordas da piscina, mas um pouco mais no centro, que era criar a possibilidade de algu\u00e9m poder andar por tr\u00e1s das caixas ou pelo meio das caixas, e como a piscina era super grande, isso era super poss\u00edvel, as pessoas podiam ocupar a parte entre caixas ou atr\u00e1s das caixas, e isso modificava completamente o som. S\u00f3 que a ideia do som mesmo veio depois de primeiro pensar que eu queria que as pessoas descessem, e a\u00ed quando eu entendi que as pessoas iam descer, eu pensei \u2018agora tenho que fazer com que elas fiquem aqui dentro&#8230; como \u00e9 que eu fa\u00e7o elas ficarem aqui dentro?\u2019, e a\u00ed eu comei a pensar que, construir algum trabalho sonoro que fosse relacionado a drones e uma coisa quase meditativa, era um jeito de fazer com que as pessoas tivessem uma certa expectativa em rela\u00e7\u00e3o ao som. Eu achei que se ele fosse muito din\u00e2mico, as pessoas iam ouvir um pouco e elas iam rapidamente \u2018ai, j\u00e1 entendi\u2019, mas quando ele \u00e9 muito constante e demora muito pra se ir se transformando, eu achei que a expectativa delas ia fazer com que elas se mantivessem ali mais tempo, esperando que alguma coisa fosse acontecer, s\u00f3 que as varia\u00e7\u00f5es elas se davam t\u00e3o lentas que elas ficavam mais tempo ali dentro. Acabou que uma s\u00e9rie de coisas tamb\u00e9m fizeram esse trabalho funcionar muito melhor: uma \u00e9 porque, mais do que eu imaginava, as pessoas ficaram muito tempo dentro da piscina, porque o que eu fiz foram tr\u00eas composi\u00e7\u00f5es, uma pra cada caixa de som, tr\u00eas vozes, s\u00f3 que, pra cada grupo de tr\u00eas eu fiz tr\u00eas composi\u00e7\u00f5es com esses grupos, cada composi\u00e7\u00e3o tinha uma hora e dez, ent\u00e3o pra ouvir o trabalho inteiro, tinha que ficar tr\u00eas horas e meia dentro da piscina ou por ali, algumas pessoas ficaram, claro que foi a minoria, mas muita gente ficou mais do que uma hora dentro da piscina, porque \u00e9 muito estranho e n\u00e3o era uma coisa que eu estava esperando. Eu acho que isso se deu por uma s\u00e9rie de detalhes, a piscina, por mais estranha que fosse, era um lugar t\u00e3o anormal, que era uma oportunidade muito boa ficar naquele lugar; o tempo tamb\u00e9m ajudou muito, porque apesar de ser ver\u00e3o no rio, na \u00e9poca que o trabalho foi feito, ficou super nublado, de um jeito assustadoramente nublado, ent\u00e3o o c\u00e9u estava muito carregado, s\u00f3 que sem chover forte em nenhum momento, s\u00f3 garoa, ent\u00e3o ficou um clima gostoso, o c\u00e9u cinza, que tinha uma rela\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica, relacionada ao som, e isso foi gerando nas pessoas, num plano bem exagerado isso que eu vou falar, mas quase como se elas estivesse numa capela, e isso criou um ambiente&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Eu vejo na tua conversa uma ideia de transformar o espectador num coautor do teu trabalho, porque voc\u00ea pede a eles que se posicionem e foquem nisso, \u201ceu quero que tu posiciones sobre meu trabalho, quero que tu cries uma rela\u00e7\u00e3o aqui com ele\u201d<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> \u00c9, e em v\u00e1rias performances isso est\u00e1 presente, naquela que eu te expliquei tamb\u00e9m, que aconteceu na Oswald , que eu inverti a posi\u00e7\u00e3o mais clara, onde seria palco e p\u00fablico, e eu na verdade botei ao contr\u00e1rio, ent\u00e3o as pessoas tinham que entrar e a\u00ed elas davam de cara com o que seria como se fosse um palco e plateia invertidos, ent\u00e3o elas tinham que passar por onde teoricamente era o palco, pra depois chegar no lugar onde elas sentariam e s\u00f3 essa sensa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico abrir a porta e n\u00e3o saber muito bem o que fazer, porque na verdade ele tem que passar por dentro do espet\u00e1culo pra depois chegar no lugar onde ele vai assistir, fazia com que o p\u00fablico fosse&#8230; a primeira pessoa que entrou n\u00e3o, ela entrou e sentou, mas a segunda que entra, ela j\u00e1 \u00e9 parte do espet\u00e1culo pra primeira que v\u00ea e o fato dela abrir e fechar a porta, ela modificava a ilumina\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o de um jeito aleat\u00f3rio, porque eu n\u00e3o sabia quando as pessoas iam entrar ou sair; e isso eu tentei fazer em muitas das performances. Tem um outro exemplo muito caracter\u00edstico disso que foi uma performance que eu fiz no MAM, do Rio, s\u00f3 que na parte de baixo do MAM, n\u00e3o dentro de uma sala, mas num espa\u00e7o aberto, e a\u00ed as caixas de som ficavam em volta do espa\u00e7o, s\u00f3 que tinha um n\u00facleo no meio, bem centralizado, que eu coloquei um amplificador, uma guitarra, um baixo, onde eu fiz a a\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que eu tive uma preocupa\u00e7\u00e3o que eu n\u00e3o queria que o p\u00fablico ficasse de frente pra mim, porque eu achei que era muito f\u00e1cil essa rela\u00e7\u00e3o pro p\u00fablico me olhar de frente, e a\u00ed o que eu fiz foi colocar dois holofotes de 2.000 Watts cada um, atr\u00e1s de mim, virados pra frente, ent\u00e3o se a pessoa estivesse olhando pra mim de frente, na verdade a luz era t\u00e3o forte que ofuscava, o que fez com que o p\u00fablico todo se situasse atr\u00e1s de mim, e isso \u00e9 um jeito de criar esses problemas incluindo o p\u00fablico, ou voc\u00ea fica num lugar onde voc\u00ea consegue enxergar, ou voc\u00ea fica num lugar onde a luz te atrapalha, e isso \u00e9 uma escolha sua. Cada pessoa dessas, a pessoa que ficou atr\u00e1s ou a pessoa que ficou na frente, ela tem uma percep\u00e7\u00e3o diferente do trabalho. E a\u00ed s\u00e3o pequenos mecanismos pra tentar mostrar que na verdade o ponto de vista altera tudo, ent\u00e3o se a pessoa t\u00e1 olhando uma coisa como arte, ou se ela t\u00e1 olhando aquilo como uma mera atividade, isso por si s\u00f3 j\u00e1 muda a rela\u00e7\u00e3o que a gente tem com as coisas; uma pedra \u00e9 s\u00f3 uma pedra, uma pedra dentro de um museu, \u00e9 uma outra coisa. Ent\u00e3o, mexer com o p\u00fablico e for\u00e7ar ele a ter esse problema \u00e9 um neg\u00f3cio que me atrai, me agrada, porque tamb\u00e9m desmistifica um pouco a ideia do que \u00e9 a arte, do que n\u00e3o \u00e9, por que eu t\u00f4 de um lado e ele t\u00e1 de outro? Por que n\u00e3o pode ser invertido e dar certo do mesmo jeito?<\/p>\n<p><strong>Entrevistador:<\/strong> Falaste tamb\u00e9m que havia um lugar no Rio que passava muita m\u00fasica experimental&#8230; eu j\u00e1 me esqueci do nome&#8230; ou era uma loja de discos?<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> <a href=\"https:\/\/tv.estadao.com.br\/cultura,casa-noturna-na-lapa-e-reduto-de-musica-experimental-no-rio,235534\">Plano B<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Entrevistador:<\/strong> Plano B! Sim!<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> \u00c9, esse lugar foi fundamental pra mim, foi minha escola de m\u00fasica. Eu nunca estudei m\u00fasica formalmente, sempre fui aprendendo, tocando junto com as pessoas, mas quando eu descobri o Plano B, que foi por volta de 2003, 2004, a\u00ed mudou alguma coisa na minha cabe\u00e7a, porque eu vi a quantidade de gente que tinha no Rio de Janeiro fazendo m\u00fasica maluca, de formas completamente diferentes, e como a maior parte dessa galera era meio nova ou tava entrado ali de paraquedas, conhecia alguma coisa ou outra, o que rolou \u00e9 que muita gente ali foi aprendendo uns com os outros de um jeito muito bom. Ah, o Plano B era um lugar absurdo, \u00e9 muito dif\u00edcil ter um lugar como esse; era uma loja de discos min\u00fascula, que cabiam 20 pessoas dentro, no m\u00e1ximo, \u00e0s vezes cabia muito mais, apertado demais tamb\u00e9m (risos) e quem levava a loja era o Fernando e a F\u00e1tima; era um lugar onde toda sexta feira tinha show, o Fernando e a F\u00e1tima n\u00e3o cobravam, ent\u00e3o era de gra\u00e7a e durante um bom tempo eu morei em Santa Teresa, ent\u00e3o eu sa\u00eda de casa e ia pra l\u00e1 a p\u00e9, independente do que eu fosse fazer na sexta feira eu passava l\u00e1 no Plano B antes e ficava meia hora ou ficava seis horas l\u00e1, bebendo uma cerveja e depois ia fazer outra coisa ou ia fazer outra coisa e voltava e era um lugar super aberto, ent\u00e3o n\u00e3o tinha muito essa ideia de que uma sele\u00e7\u00e3o de projetos, de quem vai tocar e quem n\u00e3o vai, meio que todo mundo tocou ali, sei l\u00e1 eu devo ter tocado no Plano B umas 50 vezes, ent\u00e3o esse lugar foi muito importante, porque fez com que eu entendesse um leque gigantesco de possibilidades dentro de m\u00fasicas de improviso, m\u00fasica experimental, me fez conhecer um monte de gente e me fez poder testar as coisas, sem medo, sem frescura, porque boa parte das vezes que eu toquei l\u00e1 n\u00e3o era bem um show, uma coisa organizada, era tipo \u2018ah, vamo fazer qualquer coisa\u2019, sabe? N\u00e3o, esse lugar era muito incr\u00edvel, durou dez anos esse lugar e tem poucos anos que ele fechou.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Outra coisa que transparece no teu trabalho \u00e9 uma ideia de, n\u00e3o s\u00f3 nos espa\u00e7os que tocavas) e na tecnologia que tu usas, uma op\u00e7\u00e3o por usar a tecnologia que est\u00e1 quase a desaparecer, seja com a c\u00e2mera HI8, ou um \u00f3rg\u00e3o que tem muito a ver com a destrui\u00e7\u00e3o, ou quase desuso&#8230; N\u00e3o sei se achas essa observa\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> N\u00e3o, eu acho \u00f3timo, porque tem algumas coisas a\u00ed&#8230; Tem um pouco a ver com a Escola de Belas Artes&#8230; \u00e9 isso, a gente ficou convivendo uns com os outros naquele ambiente cheio de tralha durante anos&#8230; eu comecei a internalizar uma ideia: d\u00e1 pra fazer arte ou m\u00fasica ou qualquer coisa do g\u00eanero com as coisas que est\u00e3o ali, com as coisas que t\u00e3o \u00e0 m\u00e3o, com as coisas que est\u00e3o ao redor, e a\u00ed eu acho que eu fui desenvolvendo um jeito de olhar pro mundo menos relacionado em querer alguma coisa do que usar aquela coisa eu est\u00e1 por ali, ent\u00e3o antes de ter uma ideia e querer alguma coisa que ainda n\u00e3o existe, de um modo geral eu acabo tentando olhar o que tem em volta e esses s\u00e3o os materiais. Ah, eu lembro de uma brincadeira, uma coisa super boba, mas teve uma \u00e9poca na faculdade que eu passei um ano inteiro usando o mesmo balde de tinta preta, porque por acidente eu perdi a tampa, a\u00ed eu falei \u2018p\u00f4, vou ter que usar essa porra todo dia, porque se n\u00e3o vai secar\u2019 e a\u00ed meu material durante o ano inteiro foi uma esp\u00e1tula e o balde de tinta preta (&#8230;) Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 coisa do som e v\u00eddeo, sei l\u00e1, depois de anos trabalhando com v\u00eddeo eu fui comprar uma c\u00e2mera, porque na verdade eu tinha uns v\u00eddeos cassetes, umas TVs, umas c\u00e2meras, que foram desaparecendo, sei l\u00e1, minha tia tinha uma c\u00e2mera que n\u00e3o usava, tava guardada, eu peguei a c\u00e2mera, a\u00ed um outro tinha uma TV, vai juntando um monte de tralhas (risos), eu ficava brincando que eu tinha uma ilha de edi\u00e7\u00e3o do apocalipse, porque era um monte de porcaria, tudo funcionava meio mal e foi o tipo de equipamento que eu usei durante muito tempo. Eu tenho um \u00f3rg\u00e3o em casa e eu s\u00f3 tenho esse \u00f3rg\u00e3o, porque um amigo se mudou pra uma casa que tinha um \u00f3rg\u00e3o e n\u00e3o tocava e a\u00ed ele falou \u2018mano, tu quer essa porra? Toma pra voc\u00ea\u2019, eu fui e peguei; \u00e9 uma coisa de o que est\u00e1 em volta, vai me facilitando, quase como se o mundo j\u00e1 d\u00e1 as sugest\u00f5es, sabe? As coisas j\u00e1 est\u00e3o meio que a\u00ed. Tem jeitos de fazer as coisas, tem gente que consegue ter uma ideia de planejamento, uma ideia de escolhas, que eu fico com a sensa\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o e muito minha praia, sabe? Acho que mais do que os desejos, \u00e9 um entendimento do que j\u00e1 est\u00e1 ali meio presente, ent\u00e3o meus trabalhos se d\u00e3o muito enquanto t\u00e1 fazendo, sabe? (&#8230;) A pessoa que tem um sof\u00e1 novo, uma TV nova, e a todo tempo ela t\u00e1 trocando, \u00e9 como se ela, de algum jeito, tivesse negando a pr\u00f3pria exist\u00eancia dela, \u00e9 como se ela tivesse um presente est\u00e1tico, onde todas as coisas funcionam e est\u00e3o limpas, ela parece que afasta dela essa possibilidade da morte, essa possibilidade do desgaste, do envelhecimento&#8230; e essa coisa do meu prazer \u00e9 uma tentativa de entender tamb\u00e9m isso, sabe? O tempo passa, eu hoje em dia j\u00e1 n\u00e3o tenho a mesma energia de quando eu tinha 17 anos e daqui a dez anos eu vou ter menos energia e vou ter menos cabelo e vou conseguir fazer coisas diferentes e talvez intelectualmente alguma coisa se amplie, mas fisicamente talvez piore, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Entrevistador:<\/strong> Achas que essa ideia de transforma\u00e7\u00e3o e tempo, a maneira como tu v\u00eas o tempo de transforma\u00e7\u00e3o e tempo de dura\u00e7\u00e3o, achas que \u00e9 algo que vai continuar a influenciar o teu trabalho?<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> Definitivamente. Se voc\u00ea pegar todos os meus cadernos de anota\u00e7\u00e3o, em pelo menos umas dez p\u00e1ginas de cada um deles est\u00e1 escrito \u2018tempo\u2019, sei l\u00e1 o tempo \u00e9 uma coisa que&#8230;<\/p>\n<p><strong>Entrevistador:<\/strong> Porque tem uma coisa que tamb\u00e9m \u00e9 profundamente musical, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> Totalmente! A m\u00fasica s\u00f3 se d\u00e1 no tempo, como a exist\u00eancia s\u00f3 se d\u00e1 no tempo&#8230; e \u00e9 engra\u00e7ado isso, porque, como boa parte dos meus trabalhos eu n\u00e3o apresento em ambientes fundamentalmente de m\u00fasica, acontece um dist\u00farbio sobre esse problema do tempo, que eu acho muitas vezes positivo, nem sempre, mas muitas vezes, que \u00e9, normalmente quando voc\u00ea vai a um show, ou assistir a um concerto ou qualquer coisa do g\u00eanero, tem uma hora que o port\u00e3o abre, voc\u00ea entra, senta, a coisa come\u00e7a, termina e as pessoas saem, e a\u00ed, certas estruturas como eu e a Luiza fizemos, da gente come\u00e7ar a tocar antes do port\u00e3o abrir e parar de tocar depois do port\u00e3o fechar, com as pessoas j\u00e1 fora, a possibilidade desses lugares alternativos, que a m\u00fasica tem entrado, se mesclando com artes visuais e com outros ambientes, vai possibilitando umas certas brincadeiras, uns certos jogos, com essa pr\u00f3pria ideia do tempo (&#8230;) Mesmo trabalhos meus que s\u00e3o um pouco mais narrativos, essa narrativa ela brinca um pouco com a possibilidade da pessoa assistir 5 minutos, ou duas horas, sei l\u00e1, tem um outro trabalho meu bem de m\u00fasica que o nome \u00e9 \u2018Overlap\u2019 (Sobreposi\u00e7\u00e3o), que \u00e9 uma esp\u00e9cie de m\u00fasica minimalista, pra piano, s\u00f3 que pra um piano el\u00e9trico ligado num \u2018loop station\u2019, num pedal de \u2018loop\u2019, ent\u00e3o eu come\u00e7ava fazendo uma varia\u00e7\u00e3o de notas e gravava essa varia\u00e7\u00e3o por dez minutos, depois eu soltava o loop e come\u00e7ava a fazer uma outra varia\u00e7\u00e3o, por dez minutos, depois eu soltava o loop j\u00e1 das duas e continuava; a ideia do ac\u00famulo brinca um pouco com a ideia de macro e micro, porque se a pessoa entende a c\u00e9lula da m\u00fasica, ela talvez j\u00e1 tenha uma ideia do todo, mas \u00e9 claro que se voc\u00ea ouvir tudo, ela tem uma experi\u00eancia diferente, o que \u00e9 diferente de um ideia e quando eu jogo isso pro espectador, eu t\u00f4 tentando falar pra ele assim: \u2018dependendo da sua inten\u00e7\u00e3o, voc\u00ea tem uma experi\u00eancia ou voc\u00ea tem um entendimento\u2019, que s\u00e3o coisas muito diferentes, mas a\u00ed n\u00e3o tenho como obriga-lo a ter experi\u00eancia, mas ele pode.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> \u00c9 como na piscina, onde as pessoas t\u00eam que se mover para ter pontos de escuta diferentes, a ac\u00fastica do espa\u00e7o vai mudar radicalmente, se ela ficar uma hora \u00e9 uma experi\u00eancia, se ela ficar duas horas, \u00e9 outra experi\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> Uhum. E dentro desses trabalhos de m\u00fasica mais longos, como o da piscina, a performance de tr\u00eas horas, o trabalho do <a href=\"https:\/\/www.institutotomieohtake.org.br\/exposicoes\/interna\/proximas-exposicoes\">Tomie Ohtake<\/a> (sem t\u00edtulo) que tinha nove horas, tem uma coisa que \u00e9 jogar um pouco com essa ideia de que, pra algumas coisas, leva muito tempo, que \u00e9 outro tipo de coisa que eu levo muito a s\u00e9rio: n\u00e3o d\u00e1 pra voc\u00ea achar que voc\u00ea vai ter uma experi\u00eancia verdadeira, sem ter um pouco de paci\u00eancia pra que a coisa te atinja, \u00e9 muito diferente ouvir um acorde qualquer por 1 minuto e ouvir esse mesmo acorde por meia hora, \u00e9 quase como se esse acorde, com meia hora de escuta, fosse criando outras rela\u00e7\u00f5es na cabe\u00e7a, ent\u00e3o eles v\u00e3o fazendo voc\u00ea ouvir eles de um jeito diferente, voc\u00ea vai colocando ele como figura e fundo diversas vezes, porque o tempo \u00e9 t\u00e3o alargado, que o barulho do carro \u00e0s vezes \u00e9 figura, \u00e0s vezes \u00e9 fundo, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Neste caso, na obra do Tomie Ohtake , muito por erro meu, n\u00e3o encontrei informa\u00e7\u00e3o sobre a dura\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a&#8230;<\/p>\n<p><strong>Pontogor:<\/strong> Ent\u00e3o, esse foi um problema muito s\u00e9rio, o que eu tive que decidir foi: eu coloco a dura\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o? Porque muda completamente a percep\u00e7\u00e3o do trabalho. Foi dif\u00edcil decidir isso e eu pedi a opini\u00e3o de v\u00e1rias pessoas e cada uma dava opini\u00f5es mais malucas e raz\u00f5es (\u2026) ganhou as pessoas que achavam que eu deveria colocar a quantidade de tempo, porque todas elas tratavam como se a quantidade de tempo fosse um dado do trabalho e eu concordo, \u00e9, mas n\u00e3o precisa estar escrito, porque o \u2018d\u00f3\u2019 \u00e9 uma qualidade de um trabalho sonoro, dentro de uma composi\u00e7\u00e3o, onde tem um \u2018d\u00f3\u2019, voc\u00ea n\u00e3o precisa ver a partitura, ele vai estar dentro da composi\u00e7\u00e3o inteira, voc\u00ea pode at\u00e9 perceber, por uma boa audi\u00e7\u00e3o (&#8230;)isso foi uma coisa que eu preferi n\u00e3o colocar, eu preferi que as pessoas n\u00e3o soubessem, porque se ela ouvisse aquilo por algum tempo, ela ia perceber que todo tempo que ela t\u00e1 ouvindo, nada ia se repetir, e a\u00ed talvez isso pudesse gerar nela uma certa curiosidade de \u2018ser\u00e1 que uma hora repete? E se n\u00e3o repete, como faz?\u2019, porque a ideia era o trabalho ter o tempo inteiro que o espa\u00e7o ficava aberto, que era nove horas, ent\u00e3o algu\u00e9m chegava l\u00e1, dava 1 play e o trabalho tocava at\u00e9 a hora de desligar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguinte entrevista foi realizada a 30\/03\/2016 Rui Chaves: Eu queria que tu falasses um pouco do teu percurso&#8230; Eu &hellip; <a href=\"https:\/\/www.nendu.net\/?p=1805&#038;lang=pt\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Pontogor#2<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1808,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1805"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1805"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1805\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1814,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1805\/revisions\/1814"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1808"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}