{"id":1815,"date":"2018-06-12T14:27:31","date_gmt":"2018-06-12T14:27:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nendu.net\/?p=1815"},"modified":"2018-06-12T14:27:31","modified_gmt":"2018-06-12T14:27:31","slug":"marcelo-armani1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nendu.net\/?p=1815&lang=pt","title":{"rendered":"Marcelo Armani#1"},"content":{"rendered":"<h1>Marcelo Armani<\/p>\n<p><em>\u201cA paisagem sonora \u00e9 um museu a c\u00e9u aberto e n\u00e3o tem como confinar em quatro paredes e botar num acervo\u201d<\/em><\/h1>\n<p>A seguinte entrevista foi realizada em 18\/04\/2016 em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> A primeira coisa, eu gostaria que tu falasses um pouco sobre o teu percurso, como \u00e9 que tu chegaste na arte sonora\u2026<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Eu vou falar horrores, porque se tu me d\u00e1 ouvidos&#8230; (risos) Eu acho que antes de entrar no campo da arte sonora e entrar em conceitos e toda essa coisa que a gente v\u00ea bastante nas artes, o meu primeiro contato foi sonoro, os primeiros contatos que eu tenho da minha inf\u00e2ncia s\u00e3o inteiramente sonoros&#8230; uma porque eu nasci no interior do Rio Grande do Sul, uma cidade que chama Carlos Barbosa, que \u00e9 a cidade que fabrica os talheres Tramontina, e s\u00f3 tem Tramontina naquela cidade, meu pai chegou a trabalhar l\u00e1&#8230; agora eu acho que toda a popula\u00e7\u00e3o ou trabalha na Tramontina ou trabalha indiretamente pra ela&#8230; N\u00e3o sei por que chama Carlos Barbosa a cidade&#8230; e a gente tinha fog\u00e3o a lenha, porque l\u00e1 no interior do RS \u00e9 muito frio, n\u00e9, n\u00e3o chega a ser um frio europeu, mas fazia l\u00e1 seus -5\u00b0C, -3\u00b0C, ent\u00e3o, eu venho de fam\u00edlia italiana e a gente tinha fog\u00e3o a lenha (&#8230;) cada estalo da madeira no fogo era algo que me chamava a aten\u00e7\u00e3o e eu molhava algumas pontas pra ouvir o \u2018tsssssssss\u2019, ent\u00e3o tinha todo um \u2018fade in\u2019, tinha um \u2018fade out\u2019, tinha uma espacialidade sonora do fogo, e eu tinha uns 3, 4 anos e eu lembro disso, \u00e9 muito forte. Tinha um abajur velho tamb\u00e9m, que eu gostava da textura do tecido do abajur que eu ficava raspando o dedo no abajur. Depois disso a gente se mudou pro interior, pra uma outra cidade do interior e os meus pais come\u00e7aram a trabalhar com agricultura (\u2026) o que me chamava aten\u00e7\u00e3o era sempre o temporal, quando dava tempestade, tempestade no campo \u00e9 uma outra viagem, n\u00e3o \u00e9 essa que acontece aqui, porque tu escuta o trov\u00e3o, tu escuta os graves, tu sente os graves, ent\u00e3o come\u00e7ou desde a minha inf\u00e2ncia, passando por esse processo em casa, depois no campo, depois a gente se mudou pra Porto Alegre, na verdade pra Canoas, que \u00e9 a regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, s\u00f3 que Canoas \u00e9 cidade mais industrial, \u00e9 como se fosse o ABC Paulista, tem muitas ind\u00fastrias, tem uma refinaria de petr\u00f3leo, \u00e9 cidade dormit\u00f3rio&#8230; e a gente se mudou em 86 se eu n\u00e3o me engano, que era na \u00e9poca que estavam instalando o metr\u00f4, que \u00e9 um trem, mas eles chamam de metr\u00f4 l\u00e1, \u00e9 um metr\u00f4 de superf\u00edcie, e imagina, tu sai do estalo madeira, do trov\u00e3o e tu cai numa escada rolante e o ranger do ferro, do trilho, cara, isso mudou a minha vida! At\u00e9 hoje, o que eu adoro gravar \u00e9 metr\u00f4, sabe? E tempestade. (\u2026) A\u00ed em Canoas, p\u00f3lo industrial e tal, a\u00ed d\u00e9cada de 90 eu ca\u00ed no punk, eu cheguei no punk rock, comecei a tocar bateria, muito influenciado pelo meu av\u00f4 tamb\u00e9m, que ele tocava acordeom, bateria e ele era meio inventor, ele queria fazer um instrumento que tocasse tudo (risos), \u00e9 desses gringo maluco que jogam dentro do navio, sabe? Ele era assim&#8230; e ele chegou a fazer um instrumento que ele tocava castanhola, tocava gaita com a m\u00e3o, n\u00e3o sei o que com o p\u00e9, cara, ele era doido! (risos) E acho que a parte mais musical veio dele, porque quando eu era rec\u00e9m nascido, minha m\u00e3e teve t\u00e9tano e meu pai trabalhava, ent\u00e3o eles chamavam meu av\u00f4 pra ficar comigo o dia inteiro, ent\u00e3o ele me colocava numa perna e na outra o acordeom e meu ouvido s\u00f3 escuta acordeom (risos), mas a\u00ed eu conheci punk rock, tal, p\u00f3s-punk depois, e eu comecei a tocar bateria com 14 anos, e a\u00ed nesse momento eu entrei mais na parte musical e tinha umas bandas de p\u00f3s rock tocando pra c\u00e1, pra l\u00e1&#8230; em 2007 a banda acabou, por quest\u00f5es de que eu estava fazendo mais pesquisa com ru\u00eddo, com noise&#8230;(&#8230;) nessa \u00e9poca eu j\u00e1 tinha descoberto Stockhausen, John Cage,\u00a0 Daphne Oram, esse povo, n\u00e3o cheguei ainda na galera da arte sonora\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Mas como \u00e9 que tu chegaste a esse pessoal? Foi por pesquisa pessoal ou\u2026<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Foi&#8230; cara, quando eu ca\u00ed na arte sonora, foi muito engra\u00e7ado, porque eu passei a trabalhar de 2007 at\u00e9 2011, eu trabalhei muito com improvisa\u00e7\u00e3o eletroac\u00fastica sem saber que era eletroac\u00fastica, eu me intitulava \u2018m\u00fasico improvisador\u2019 e \u2018m\u00fasico experimental\u2019, m\u00fasico experimental hoje qualquer cara que toca guitarra com bossa nova se intitula m\u00fasico experimental (risos), ent\u00e3o eu tinha isso muito vivo da improvisa\u00e7\u00e3o, eu toquei muito com um pessoal da Argentina e do Chile, esse pessoal me apresentou a eletroac\u00fastica, ent\u00e3o eu me dei conta de que o que eu tava fazendo era improvisa\u00e7\u00e3o eletroac\u00fastica, mas at\u00e9 ent\u00e3o era essa eletroac\u00fastica mista, ent\u00e3o eu processava efeitos sobre bateria, que era o instrumento que eu dominava, alguns instrumentos de percuss\u00e3o, como o berimbau, eu estragava o berimbau, como alguns m\u00fasicos dizem, e eu adorava, tocava o berimbau com arco e delay (risos) (&#8230;)\u00a0 em 2011 eu fui pra Buenos Aires pra tocar e por casualidade tava acontecendo o Tsonami e e me inscrevi em 3 oficinas, e a\u00ed fiz uma do <a href=\"http:\/\/www.rodrigosigal.com\/\">Rodrigo Sigal<\/a>, que eu n\u00e3o fazia ideia de quem era nenhum deles, o Manuel Rocha Iturbide e o Marco Scarassatti \u2013 a parada com o Marcos era mais improvisa\u00e7\u00e3o, o Rodrigo Segal era composi\u00e7\u00e3o eletroac\u00fastica e o Manuel Rocha Iturbide era sonora pura\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Esse Manuel Rocha Iturbide \u00e9 da onde?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> <a href=\"http:\/\/www.artesonoro.net\/\">Manuel Rocha Iturbide<\/a>, ele \u00e9 mexicano.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> J\u00e1 ouvi falar dele&#8230; ele \u00e9 compositor tamb\u00e9m, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Ele \u00e9 compositor eletroac\u00fastico, mas ele trabalha com arte sonora, com exposi\u00e7\u00e3o, instala\u00e7\u00e3o&#8230; O Rodrigo Sigal ele \u00e9 mais compositor eletroac\u00fastico mesmo. Eu tinha oficina com o Rodrigo de manh\u00e3, na primeira hora da manh\u00e3, e depois com o Manuel Rocha, mas esses dois caras foram muito importantes, foi nesse momento que aconteceu uma virada no meu ouvido, e eu entendi&#8230; \u00e9 muito engra\u00e7ado, porque com o Sigal eu aprendi a ouvir e a compor, mesmo numa oficina de poucos dias, eu at\u00e9 nem fui todos os dias, porque eu tive que voltar, eu j\u00e1 tinha passagem comprada, mas eu fiz uns tr\u00eas dias de oficina, e como o Manuel acho que foi um cara que quando eu participei da oficina dele eu percebi que o que a gente faz com proje\u00e7\u00e3o eletroac\u00fastica \u00e9 arte sonora e \u00e9 muito mais legal tu fazer como exposi\u00e7\u00e3o e instala\u00e7\u00e3o, porque ela toca durante 30 dias numa galeria, essa era a minha viagem, a minha viagem era que \u2018cara, por que eu vou tocar uma hora\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> &#8230; quando eu posso transpor isso pra outra realidade, que me permite atingir outra liberdade, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Total! S\u00f3 que nesse momento, eu n\u00e3o sabia nada de Duchamp, por exemplo, n\u00e3o tinha essas outras rela\u00e7\u00f5es com Deriva, com Debord, eu n\u00e3o sabia nada desses fil\u00f3sofos, que s\u00e3o muito utilizados pra embasar um conceito em artes visuais, e eu n\u00e3o sabia nada, a minha viagem era essa, era o som no lugar, ent\u00e3o quando eu voltei de Buenos Aires, em maio de 2011, j\u00e1 no avi\u00e3o eu comecei a pensar num processo de instala\u00e7\u00e3o sonora\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Estavas interessado em sair do concerto e ir para a galeria, que esse salto j\u00e1 \u00e9 muito mais legal do que&#8230;<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> J\u00e1 \u00e9 muito mais legal, porque eu j\u00e1 sabia como fazer, porque eu gravava em casa, fazia edi\u00e7\u00e3o em casa, com o Adobe Audition, lan\u00e7ava na internet, fazia essas viagens, ent\u00e3o a parte da edi\u00e7\u00e3o eu j\u00e1 tinha e o resto era dar asas pro c\u00e9rebro; quando eu retornei de Buenos Aires pra Porto Alegre eu comecei a pensar num projeto de instala\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um projeto que chama <a href=\"http:\/\/marceloarmani.weebly.com\/transobrepor.html\">tranS(obre)por<\/a>, que \u00e9 um projeto que eu colo fios vermelhos na parede e esse foi meu primeiro projeto. Quando eu cheguei em Porto Alegre, eu recebi um convite do pessoal l\u00e1 de Porto Alegre pra expor, pra participar de uma exposi\u00e7\u00e3o que abria em julho de 2011, e eu falei pra mulher que tava organizando que eu tinha um projeto e era uma mostra coletiva, ningu\u00e9m tinha alto-falante (risos), nem fone de ouvido tinha e naquela \u00e9poca eu ainda usava muito de mapeamento sonoro&#8230; hoje eu n\u00e3o gosto de usar muito a palavra mapeamento, porque eu acho que \u00e9 meio egocentrismo tu dizer \u2018ah, esse \u00e9 o som desse lugar\u2019, \u00e9 um fragmento, \u00e9 um recorte, que n\u00e3o \u00e9 o som do lugar, que vai depender do microfone, de uma s\u00e9rie de coisas e o ouvido da gente \u00e9 neutro, n\u00e3o adianta tu querer se sobrepor a natureza, o som faz parte da natureza, eu acredito nisso, e desse fluxo de pensamentos que as pessoas transitam constantemente, a\u00ed tu j\u00e1 entra num outro plano que \u00e9 muito mais antropol\u00f3gico e social, a arte sonora e o mapeamento sonoro, eles se dissolvem completamente quando a gente come\u00e7a a olhar isso por um outro olhar, por esse olhar mais social (\u2026) esse tranS(obre)por foi meu primeiro projeto e a\u00ed naquela \u00e9poca eu brincava muito com essa hist\u00f3ria de mapeamento, s\u00f3 que eu j\u00e1 tinha uma viagem que eu queria que as pessoas percebem o som do local, eu n\u00e3o queria s\u00f3 alto-falante e paisagem sonora, eu queria que elas tivessem a percep\u00e7\u00e3o visual, ent\u00e3o eu trabalhava com impress\u00e3o fotogr\u00e1fica\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E o que \u00e9 legal no seu trabalho \u00e9 o elemento visual que est\u00e1 a coroar a escuta ou a expandir aquilo que tu est\u00e1s a apresentar.<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> A quest\u00e3o visual dele funciona como esses pap\u00e9is que a gente chamava de papa mosca, esses pap\u00e9is com cola que a mosca pousa e n\u00e3o sai mais, ou essas luzes pra matar mosquito que atrai pela vis\u00e3o, ent\u00e3o a quest\u00e3o visual do trabalho ela \u00e9 muito forte, porque eu quero que as pessoas entrem pra depois poderem navegar pela via sonora&#8230;(&#8230;)Tu tem uma minhoca e um anzol, n\u00e9 (risos). \u00c9 \u00f3bvio que tem outros conceitos por tr\u00e1s disso, mas singelamente o primeiro conceito \u00e9 esse (&#8230;) eu pego elas pela vis\u00e3o, ent\u00e3o na \u00e9poca eu pegava essas impress\u00f5es feitas com o Google Maps ou Google Earth, ent\u00e3o eu meio que selecionava o ponto de onde eu tava captando e imprimia esse mapa; hoje eu j\u00e1 fui pra abstra\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o me interessa mais o mapa, o que me interessa\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> \u00c9 mais o trajeto, aquilo que tem a ver com o trajeto?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> &#8230;o que me interessa \u00e9 a foto do momento da capta\u00e7\u00e3o do \u00e1udio, ent\u00e3o o mapa caiu e entrou, vamos supor, a gente t\u00e1 gravando esse copo, tiro uma foto do copo e gravar com o microfone de contato, porque vai ficar mais legal (risos), ent\u00e3o algumas vezes o equipamento sempre aparece, nesse trabalho n\u00e9, tu tem um microfone, um boom, um gravador, ou um microfone de contato ou tu tem s\u00f3 a paisagem mesmo, quando eu trabalho com microfone condensador eu uso s\u00f3 a paisagem, as pessoas t\u00eam que entender que a gente t\u00e1 usando o microfone<br \/>\n&#8230;<br \/>\n<strong>Rui Chaves:<\/strong> Porqu\u00ea que \u00e9 importante o material n\u00e3o estar escondido?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Eu acredito que o equipamento entra numa situa\u00e7\u00e3o de performance, e a gente pode brincar com aquela hist\u00f3ria do som indireto, no cinema tu nunca v\u00ea o boom, n\u00e9? \u00c9 uma coisa que tem que ficar escondida, e nesse trabalho n\u00e3o, nesse trabalho o visual ele \u00e9 uma partezinha pequena, o que vale \u00e9 o sonoro, ent\u00e3o o equipamento tem que aparecer, at\u00e9 pras pessoas come\u00e7arem a se familiarizar, come\u00e7ar a entender como s\u00e3o feitas essas capta\u00e7\u00f5es(..).Eu gosto de deixar o equipamento a vista at\u00e9 pra fazer essa liga\u00e7\u00e3o, sabe? \u2018ah, ent\u00e3o isso que a gente t\u00e1 escutando \u00e9 dessa foto, porque tem um gravador, tem um microfone\u2019, ent\u00e3o tu cria esse elo, \u00e9 mais uma forma de fazer com que as pessoas se aproximem mais dessa paisagem sonora, entendeu? Porque a paisagem sonora \u00e9 um museu a c\u00e9u aberto e n\u00e3o tem como confinar em quatro paredes e botar num acervo, tu pode, ok, ela vira um dado hist\u00f3rico, mas esses passeios sonoros que as pessoas fazem \u00e9 lindo, \u00e9 lindo, s\u00f3 que aqui no Brasil j\u00e1 \u00e9 mais dif\u00edcil, porque a gente tem que come\u00e7ar de pouco, passo a passo, e o que eu sinto \u00e9 que num primeiro momento esse trabalho consegue fazer essa liga\u00e7\u00e3o; l\u00e1 em Belo Horizonte agora teve uma hist\u00f3ria de um cara da galeria que trabalha com cer\u00e2mica, um dos funcion\u00e1rios que trabalha no Pal\u00e1cio das Artes, o cara trabalha com cer\u00e2mica, ponto, e ele participou muito do processo (&#8230;)ele saiu um dia e depois o coordenador das galerias chegou e falou comigo \u2018Marcelo, o Paulo chegou ontem pra n\u00f3s e falou que ele come\u00e7ou a prestar aten\u00e7\u00e3o nos sons da viagem que ele faz do Pal\u00e1cio das Artes pra casa dele no \u00f4nibus e ele se impressionou com coisas que passavam, o som da roleta, das moedas, essas coisas&#8230;\u2019, cara, isso j\u00e1 valeu todo o trabalho! E ele j\u00e1 veio no outro dia dizendo que teve uma ideia que queria criar uma cer\u00e2mica com som, mais um!!! (risos) Ent\u00e3o \u00e9 isso que eu acho que t\u00e1 funcionando, primeiro tu pega a pessoa no lado visual e depois tu mostra pra ela a paisagem, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ligar o microfone na rua, a gente como compositor, a gente sabe porque aquele fragmento t\u00e1 ali, porque esse tem que ser deslocado, porque esse tem que ter efeito e esse n\u00e3o, sabe? E a\u00ed no processo de composi\u00e7\u00e3o j\u00e1 atua outra coisa, \u00e9 mais uma consci\u00eancia social, mais pol\u00edtica, porque pela atual situa\u00e7\u00e3o que o pa\u00eds t\u00e1 passando \u00e9 inevit\u00e1vel que tu se posicione\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Acredito que por estares na rua, tu te deparas com isso, tu n\u00e3o queres, mas isso te apanha, ao navegar pela cidade, ver essa tens\u00e3o, esse conflito entre as pessoas, isso \u00e9 muito f\u00e1cil\u2026<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> \u00c9, \u00e9 cidade, a paisagem sonora \u00e9 isso, eu uso, a gente trata as manifesta\u00e7\u00f5es como paisagens sonoras do momento \u2013 em Belo Horizonte aconteceu uma coisa bizarra, porque eu tava numa manifesta\u00e7\u00e3o pra fazer grava\u00e7\u00e3o de campo e tava ali gravando as coisas, at\u00e9 tem uma foto que \u00e9 uma faixa, mas s\u00f3 aparece \u2018bobo globo\u2019 e os banheiros qu\u00edmicos, a ideia era brincar com os banheiros qu\u00edmicos, eu t\u00f4 gostando de trabalhar com a quest\u00e3o da imagem e o t\u00edtulo, principalmente o t\u00edtulo, tanto \u00e9 que o t\u00edtulo dessa imagem era \u2018Vazou um \u00e1udio\u2019, que \u00e9 uma coisa da pol\u00edtica, e quando eu tava fazendo essa foto, um morador de rua se aproxima de mim e olha pra c\u00e2mera e ele perguntou se eu era da Record, eu falei \u2018n\u00e3o, sou do avulso\u2019, quando eu falei avulso ele tirou o olhar da c\u00e2mera e olhou pros meus olhos e disse \u2018como assim do avulso?\u2019, a\u00ed eu expliquei \u2018tiro foto pra mim, sozinho\u2019, ele disse \u2018t\u00e1, mas tu n\u00e3o tem equipe?\u2019, eu disse \u2018n\u00e3o, sou sozinho\u2019 e ele disse \u2018mas e a\u00ed, alem\u00e3o? Tu tira bem foto?\u2019, eu disse \u2018ah, depende do modelo\u2019, ele \u2018ent\u00e3o t\u00e1 bom, vou posar aqui, tira uma foto minha\u2019, a\u00ed eu tirei uma foto dele. A\u00ed, resumindo a hist\u00f3ria, eu conheci a mulher dele, que a mulher dele tava num outro local e ele disse \u2018vou te apresentar minha mulher que ela veio me resgatar, vamo ali\u2019. A\u00ed, eu fui e nesse espa\u00e7o onde eles estavam tinha uma emissora de TV, a Bandeirantes, fazendo a grava\u00e7\u00e3o, e quando eles entraram ao vivo, o rapaz falou \u2018\u00f4 alem\u00e3o, tu tem tempo?\u2019, e a\u00ed eu fiquei pensando \u2018que pergunta mais boba a gente faz, n\u00e9, o cara \u00e9 um morador de rua, perguntando pra um artista, no meio de uma manifesta\u00e7\u00e3o, se tem tempo? \u00d3bvio que a gente sempre tem tempo, que pergunta sem no\u00e7\u00e3o n\u00e9, a gente v\u00ea o n\u00edvel que t\u00e1 a coisa, os cara pergunta se os cara tem tempo\u2019, eu disse que sim e ele disse \u2018ent\u00e3o vou te contar minha vida\u2019, quando ele come\u00e7ou a me contar a vida dele, de morador de rua, a Bandeirantes entra ao vivo, uma equipe se posiciona na frente da c\u00e2mera e come\u00e7a a gritar \u2018m\u00eddia golpista, m\u00eddia golpista\u2019 e a massa inteira come\u00e7a a gritar \u2018o povo t\u00e1 na rua, o povo t\u00e1 na rua\u2019 e o cara t\u00e1 me contando a hist\u00f3ria de vida dele, tudo ao mesmo tempo; eu me arrepio, porque um ouvido t\u00e1 escutando uma realidade e o outro ouvido t\u00e1 escutando uma outra realidade, e a\u00ed eu percebi que o que ele me falava foi um golpe de realidade, depois que ele me falou eu perguntei \u2018t\u00e1, e essa hist\u00f3ria aqui, essa mudan\u00e7a, entra Dilma, sai Dilma\u2019, ele disse \u2018cara, as mudan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o feitas pra n\u00f3s, as mudan\u00e7as s\u00e3o feitas pra algumas pessoas e a gente acaba ficando com o que sobra de mudan\u00e7a\u2019, ent\u00e3o j\u00e1 bastou, eu desliguei o gravador e disse \u2018valeu!\u2019, fiquei uns 40 minutos conversando com ele, a\u00ed peguei o metr\u00f4, gravei umas coisas no metr\u00f4 e fui pra casa, deu! (risos). (&#8230;)Essa hist\u00f3ria eu contei pro pessoal do educativo, porque sempre que eu trabalho com exposi\u00e7\u00e3o, as primeiras pessoas a ter contato com a obra \u00e9 o pessoal do educativo, eu fa\u00e7o quest\u00e3o de pegar todos os moleques, levar pra galeria, falar sobre o trabalho, falar sobre essa situa\u00e7\u00e3o, explicar a situa\u00e7\u00e3o de cada foto, explicar porque o \u00e1udio tem esse efeito ou n\u00e3o, no Ita\u00fa Cultural ano passado que eu fiz a edi\u00e7\u00e3o 8 do tranS(obre)por tinha uma faixa tamb\u00e9m que era da manifesta\u00e7\u00e3o e l\u00e1 a sala era um ret\u00e2ngulo, eu tinha dois canais do lado esquerdo e direito e dos canais na frente e nos fundos e tinha uma pe\u00e7a que eu expliquei \u2018essa voc\u00eas tem que mediar dessa forma, quando tu entra na sala o que se escuta na lateral \u00e9 o som da manifesta\u00e7\u00e3o, as buzinadas, as cornetas\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ent\u00e3o a espacializa\u00e7\u00e3o tem um simbolismo, certo?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> \u00c9, a gente brinca com arquitetura, a gente busca elementos da arquitetura, do espa\u00e7o, pra potencializar algumas coisas, mas isso, num primeiro momento \u00e9 s\u00f3 uma an\u00e1lise de arquitetura sonora, deixar um canal num lugar pra n\u00e3o condensar com o outro, pensar a audi\u00e7\u00e3o em tr\u00eas dimens\u00f5es, mas eu n\u00e3o sei que \u00e1udio vai vir e esse \u00e9 um trabalho que eu gosto de fazer justamente por isso, tu t\u00e1 na corda bamba\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Como \u00e9 tua rela\u00e7\u00e3o com a cidade? Tu tens \u00e1reas onde tu planejas gravar ou\u2026<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Eu fujo de ponto tur\u00edstico e quando eu utilizo ponto tur\u00edstico \u00e9 pra registrar muito mais a aglomera\u00e7\u00e3o ou processos de&#8230; muito relacionado com os funcion\u00e1rios&#8230; que nem, em Belo Horizonte tem dois pontos tur\u00edsticos que eu gravei, tem o Mercado Central, que \u00e9 extremamente tur\u00edstico, como o mercado de S\u00e3o Paulo, e ou outro \u00e9 uma feira que acontece na Augusto Pestana, que \u00e9 a avenida em frente ao Pal\u00e1cio das Artes, que \u00e9 uma feira de artesanato, s\u00f3 que justamente nesses dois lugares o que eu captei&#8230; \u00f3bvio, no mercado eu captei aquela massa sonora, porque era cara vendendo passarinho, pato, ent\u00e3o era aquele som de pato misturado com uma senhora pedindo queijo&#8230; (risos) tenso! E tem um elevador, que o elevador ele funciona como um isolamento ac\u00fastico, quando tu t\u00e1 dentro do elevador tu n\u00e3o escuta nada, quando tu chega, que abre a porta, tu recebe aquele choque, ent\u00e3o na instala\u00e7\u00e3o isso t\u00e1, essa que trabalha com o Mercado Central tem isso, come\u00e7a tu n\u00e3o escuta quase nada, mas \u00e9 o som do elevador descendo e abre a porta e todos os canais tocam, toca passarinho de um lado, toca uma senhora com carrinho de compra e o outro falando&#8230; e o que eu me preocupei com o Mercado Central foram essas rela\u00e7\u00f5es, mas a hora em que o mercado fecha, que come\u00e7a a descer as portas, as cortinas de ferro, isso \u00e9 lindo, porque toca uma sirene \u2018rrrrrrrrrr\u2019, imagina o mercado, ele \u00e9 grande, e todas fazendo isso, e uma de cada vez, umas fecham antes, outras depois, e as que fecham \u00e9 isso, eles t\u00eam um sistema de \u00e1udio no mercado que informa que faltam dez minutos pra encerrar as atividades, ent\u00e3o todo mundo come\u00e7a a ir embora e eu fiquei l\u00e1, eu fui expulso (risos), ent\u00e3o eu peguei o cotidiano dessas pessoas, o fechar as portas, o ir pra casa, funcion\u00e1rio dando tchau pro outro \u2018tchau, Lu, tchau, Lu\u2019, sabe? Isso \u00e9 lindo! \u00c9 Isso que me comove! E isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais paisagem sonora, isso j\u00e1 vai pra outro campo, que ele \u00e9 sutil, esse \u2018tchau, Lu, tchau, Lu\u2019 ele \u00e9 sutil, mas essa preocupa\u00e7\u00e3o do \u2018tchau\u2019, \u2018tudo bem\u2019, e na feira o que eu gravei foram os caras desmontando a feira, ent\u00e3o tem muito som de met\u00e1lico, fechando as barracas, e isso a gente j\u00e1 joga um delay, um reverb e vem esse som mais dilu\u00eddo, ent\u00e3o esse tipo de material eu gosto de trabalhar efeito, eu deixo ele puro, cru, algumas coisas puras, mas eu trabalho mais equaliza\u00e7\u00e3o, porque equaliza\u00e7\u00e3o eu tenho que trabalhar na sala, ent\u00e3o outro processo desgra\u00e7ado \u00e9 esse, reverb pra sala natural \u00e9 um inferno, ent\u00e3o tu chega, abre o computador e testa s\u00f3 em dois canais primeiro e vai equalizando fragmento por fragmento; nesse \u00faltimo eu fiz muita capta\u00e7\u00e3o no centro, de vendedores ambulantes, ent\u00e3o s\u00e3o pequenininhos fragmentos da pessoa falando \u2018olha a \u00e1gua, olha a \u00e1gua\u2019, \u2018cortar cabelo, cortar cabelo\u2019, \u2018bolsa, bolsa\u2019, ent\u00e3o tu tem que trabalhar essas coisinhas, \u00e9 cansativo, mas \u00e9 lindo, depois que o resultado t\u00e1 pronto, ent\u00e3o minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, o trabalho \u00e9 muito mais social\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E o resto da cidade, como \u00e9 que tu\u2026<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> Eu vou caminhando (\u2026) eu pego \u00f4nibus, porque&#8230; \u00f4nibus e metr\u00f4 eu gosto de pegar, porque \u00e9 aonde a coisa acontece&#8230; Aqueles \u00f4nibus mais velhos t\u00eam um barulho muito&#8230; de diesel, quase uma carro\u00e7a, isso \u00e9 legal&#8230; em Buenos Aires os \u00f4nibus s\u00e3o um caco, s\u00e3o antigos, ent\u00e3o tu tem&#8230; cara, transporte p\u00fablico \u00e9 incr\u00edvel, ent\u00e3o os primeiros fragmentos sempre s\u00e3o esses, sempre s\u00e3o, em \u00f4nibus e em metr\u00f4 ou em pra\u00e7a, onde as pessoas se re\u00fanem muito, porque a\u00ed eu sinto a cidade, eu sinto o sotaque dela, eu sinto a vibra\u00e7\u00e3o, a batida, entendeu? E a\u00ed depois eu vou me embrenhando por outros lugares (&#8230;) a maioria dos meus trabalhos eles t\u00eam um vi\u00e9s pol\u00edtico e social, tem alguns que trabalham mais quest\u00f5es da ditadura, mas s\u00e3o trabalhos que n\u00e3o \u00e9 o olhar do torturado, mas \u00e9 o olhar do filho do torturado ou do filho do desaparecido, porque na Argentina saiu h\u00e1 alguns anos que as pessoas que nasceram entre 76 e 80 poderiam ser filhos de&#8230; os pais poderiam ser os assassinos dos pais, porque o que aconteceu foi que teve muito militar que mandou matar o pai e a crian\u00e7a ficou, imagina crescer sem pai, m\u00e3e tio, porque a fam\u00edlia foge, numa dessas a fam\u00edlia foge, ent\u00e3o tu tem um \u00f3rf\u00e3o, e essa crian\u00e7a passa a ser criada pelo (assassino)&#8230; a\u00ed tu imagina isso, eu sou de 78, ent\u00e3o foi uma coisa que me deu um choque, ent\u00e3o essa hist\u00f3ria desses filhos que descobrem que foram criados pelo assassino do pai (..) outra hist\u00f3ria de um amigo artista que eu conheci numa resid\u00eancia que eu fiz, que \u00e9 de Mo\u00e7ambique, ele viveu a Guerra Civil de Mo\u00e7ambique, ele \u00e9 um fot\u00f3grafo, M\u00e1rio Macilau, e ele me narrando a hist\u00f3ria virou um trabalho, o trabalho \u00e9 um balan\u00e7o pra duas crian\u00e7as, tem dois bancos, um banco \u00e9 no ch\u00e3o, ent\u00e3o tem dois sistemas de graves no balan\u00e7o onde a crian\u00e7a senta e \u00e9 s\u00f3 a frequ\u00eancia grave que faz o banco andar, o que est\u00e1 no ch\u00e3o, parece um siri, e o outro s\u00f3 vibra, e nos quatro p\u00e9s do balan\u00e7o, eu tenho um sistema est\u00e9reo que \u00e9 s\u00f3 capta\u00e7\u00e3o feita em pra\u00e7a: as crian\u00e7as andando nos brinquedos, crian\u00e7as com o pai e com a m\u00e3e andando de bicicleta, o cara vendendo algod\u00e3o doce, e isso com um certo eco, ent\u00e3o a gente acaba caindo numa quest\u00e3o do sonho\u2026<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves<\/strong>: Porque tu n\u00e3o chegas a aferir a hist\u00f3ria diretamente, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani<\/strong>: Isso! Porque o que me chamava aten\u00e7\u00e3o no relato tanto do M\u00e1rio, quanto de alguns filhos de desaparecidos da Argentina e do Chile que eu tive algum contato, \u00e9 que eles fazem tudo pelos filhos deles hoje, sabe? Ent\u00e3o tu sente que eles t\u00eam uma lacuna de inf\u00e2ncia enorme, o pai n\u00e3o t\u00e1 s\u00f3 levando o filho pra brincar, o pai t\u00e1 brincando junto com o filho, e isso \u00e9 uma coisa que me choca horrores, porque tu imagina ser tolhido de uma inf\u00e2ncia e tu, como pai, estar vivendo a tua inf\u00e2ncia a partir da inf\u00e2ncia dele, sabe? Isso era uma coisa que me chocou muito&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Fala-me do teu trabalho, o <a href=\"http:\/\/marceloarmani.weebly.com\/carne-seca.html\">carne seca<\/a>?<\/p>\n<p><strong>Marcelo Armani:<\/strong> \u00c9! Carne seca \u00e9 comida pra escravo, n\u00e9&#8230; Ent\u00e3o no Rio Grande do Sul, que \u00e9 o estado onde eu infelizmente vivo ainda&#8230; \u00e9 um estado machista, preconceituoso, do s\u00e9culo XVI ainda.. \u00e9 legal, tu pega um avi\u00e3o de S\u00e3o Paulo e viaja pro s\u00e9culo XVI (risos), n\u00e3o, a cidade \u00e9 bonita, \u00e9 agrad\u00e1vel, mas o problema \u00e9 essa consci\u00eancia de tradicionalismo que permanece, e o RS tem uma coisa que chama Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha, o povo adora isso, porque foi uma semana que o estado do Rio Grande do Sul se tornou independente do Brasil, do Imp\u00e9rio e montou um projeto, isso porque essa revolu\u00e7\u00e3o farroupilha t\u00e1 baseada num evento econ\u00f4mico, porque o imp\u00e9rio sobretaxou o charque brasileiro feito no Rio Grande do Sul, porque tu imagina, esse charque ele \u00e9 feito pra escravos em Minas Gerais, fazenda de caf\u00e9 e o a\u00e7\u00facar, que mesmo que a gente estude separado, existe uma mistura, ent\u00e3o imagina o que esses caras ganhavam de dinheiro com isso, vendendo comida pra escravo, ent\u00e3o eles usam muito sal (\u2026) o charque produzido no Uruguai e na Argentina entra forte do Brasil, porque ele n\u00e3o \u00e9 sobretaxado, mais barato que o charque pratense, ent\u00e3o come\u00e7am a comprar muito charque do Uruguai e da Argentina e os fazendeiros em Pelotas ficam putos, porque t\u00e3o perdendo dinheiro e resolvem fazer a revolu\u00e7\u00e3o, que vem toda essa hist\u00f3ria, s\u00f3 que no meio da revolu\u00e7\u00e3o, eles fazem um acordo com o Imp\u00e9rio e quem realmente lutava, porque imagina que o fazendeiro ia colocar o filho pra lutar, ele pegava o escravo dele e colocava pra lutar (&#8230;) ent\u00e3o tinha um destacamento na revolu\u00e7\u00e3o que chamava \u2018os lanceiros negros\u2019, ent\u00e3o o fazendeiro dizia \u2018se tu lutar pela revolu\u00e7\u00e3o e for um lanceiro negro, tu vai ser um escravo livre\u2019, ent\u00e3o eles estavam em posi\u00e7\u00e3o esperando, s\u00f3 que ningu\u00e9m sabia que o acordo j\u00e1 tinha sido feito, j\u00e1 tinha acabado a revolu\u00e7\u00e3o e deram com a l\u00edngua nos dentes, disseram que os negros estavam em tal lugar, foram l\u00e1 e&#8230; \u00e9 conhecido como Batalha dos Porongos, e todos os negros s\u00e3o mortos sem saber da onde vem bala ou da onde vem faca, essa \u00e9 a revolu\u00e7\u00e3o heroica que o Rio Grande do Sul para por uma semana, assa boi, tem festividades, dan\u00e7as tradicionais, m\u00fasica ga\u00facha falando sobre prenda e machismo, escancarado, mas com um certo filtro e&#8230; o hino do RS tem uma parte que fala \u2018povo sem virtude acaba por ser escravo, sirvam nossas fa\u00e7anhas a toda terra\u2019, que fa\u00e7anhas, cara? \u00c9 uma vergonha isso, \u00e9 um exterm\u00ednio! Ent\u00e3o o trabalho come\u00e7a a\u00ed, come\u00e7a em fazer corpos de sal, ent\u00e3o eu pe\u00e7o pras pessoas deitarem, eu fa\u00e7o o contorno, depois eu fa\u00e7o o volume; e o \u00e1udio ele \u00e9 pensado como se fosse um travessia da \u00c1frica pra c\u00e1, ent\u00e3o tem muita coisa de estalar de madeira, quando a gente abre e fecha porta de madeira, dobradi\u00e7a&#8230; ent\u00e3o a forma de eu pensar um navio negreiro e um por\u00e3o, foi mais ou menos por a\u00ed, que a\u00ed a gente j\u00e1 entra numa quest\u00e3o de sonoplastia&#8230; foi muito microfone de contato nas dobradi\u00e7as das portas l\u00e1 de casa, depois leva pro software e estica, bota delay, pra criar a dita cuja da atmosfera (&#8230;) e o hino do RS t\u00e1 em toda pe\u00e7a, mas tu percebe ele no final, porque ele tem um fade in bem longo e ele \u00e9 bem esticado mesmo, ele tem uma massa que os mediadores da bienal perguntavam \u2018o que \u00e9 essa base? Parece umas cornetas do inferno&#8230;\u2019, eu disse \u2018esse \u00e9 o hino do Rio Grande do Sul esticadinho&#8230;\u2019 (risos), e no final ele aparece, sai o efeito e a\u00ed eu s\u00f3 uso essa parte do \u2018povo sem virtude acaba por ser escravo\u2019 e o escravo come\u00e7a por todos os lugares, e a\u00ed eu lembrei da garota recitando Lord Byron, ent\u00e3o \u00e9 \u2018slaves\u2019 o tempo inteiro&#8230; eu uso essa parte que ela fala \u2018slaves on the sea\u2019 e isso vai trabalhando espacialidade, n\u00e9, e \u00e9 um canal no teto e um canal embaixo, s\u00e3o as vozes de Deus na terra&#8230;. esse trabalho deu um certo problema no Rio Grande do Sul por causa disso&#8230; l\u00e1 a gente tem o CPG, que \u00e9 o Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas, tem isso em Nova Iorque, em Miami, \u00e9 um saco isso, deve ter at\u00e9 na Sib\u00e9ria (risos), quando forem pra Marte, a primeira coisa que v\u00e3o botar \u00e9 um CPG (risos) e tu vai nesses ligares pra aprender dan\u00e7a t\u00edpica e&#8230; isso!&#8230;. \u00c9 uma desgra\u00e7a, \u00e9 um evento do s\u00e9culo XV&#8230; e a minha ideia era trazer pessoas do CTG pra ver a obra, eu falei com pessoas do educativo sobre isso e eu ia mediar a obra, s\u00f3 que a Bienal n\u00e3o quis, porra cara, \u00e9 o momento! E \u00e9 legal isso, o deslocamento de uma paisagem em outra, que isso foi uma coisa que eu percebi&#8230; e esse trabalho, a primeira vez que eu fiz foi em Mo\u00e7ambique e desde ent\u00e3o eu n\u00e3o quis mais fazer ele, porque eu queria justamente que ele fizesse essa travessia da \u00c1frica pro Brasil, ent\u00e3o sem querer ele fez essa travessia, por isso que tem esses sons de coisas de oceano, a ideia era mais ou menos essa, das paisagens&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Armani \u201cA paisagem sonora \u00e9 um museu a c\u00e9u aberto e n\u00e3o tem como confinar em quatro paredes e &hellip; <a href=\"https:\/\/www.nendu.net\/?p=1815&#038;lang=pt\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Marcelo Armani#1<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[80],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1815"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1815"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1819,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1815\/revisions\/1819"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.nendu.net\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}