{"id":1820,"date":"2018-06-12T16:59:35","date_gmt":"2018-06-12T16:59:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.nendu.net\/?p=1820"},"modified":"2018-06-28T21:33:29","modified_gmt":"2018-06-28T21:33:29","slug":"vivian-caccuri2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.nendu.net\/?p=1820&lang=pt","title":{"rendered":"Vivian Caccuri#2"},"content":{"rendered":"<p><em>A seguinte conversa ocorreu a 01\/05\/2016. Na altura, a artista preparava a sua interven\u00e7\u00e3o para a 32\u00ba Bienal de S\u00e3o Paulo. A conversa acabou focando no processo de cria\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a \u00b4TabomBass\u00b4<\/em><\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ficaste no Accra?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Sim, s\u00f3 l\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Que era uma col\u00f4nia inglesa, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9! Ent\u00e3o eles falam ingl\u00eas, s\u00f3 que falam 300 outras l\u00ednguas, todo mundo fala quatro l\u00ednguas, mais franc\u00eas, \u00e9 bem interessante, e tudo \u00e9 m\u00fasica e dan\u00e7a, n\u00e3o \u00e9 separado da vida.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E o que \u00e9 que voc\u00ea foi l\u00e1 fazer?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Fui come\u00e7ar o projeto da Bienal (<a href=\"http:\/\/www.32bienal.org.br\/pt\/participants\/o\/2607\">TabomBass<\/a>), e a\u00ed, eu tava com uma ideia j\u00e1, que na hora que eu tava tentando fechar essa ideia, eu falei, \u2018caraca!\u2019, eles tinham me convidado pra ir pra Accra e eu falei \u2018putz, eu vou usar Accra, porque o que eu quero fazer tem tudo a ver com isso.\u2019&#8230; E a\u00ed outra coisa, eles n\u00e3o tomam caf\u00e9 l\u00e1!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-1821\" src=\"http:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/FBSP_34024_32BSP_160907_IB_128-lpr.jpg\" alt=\"\" width=\"1000\" height=\"667\" srcset=\"https:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/FBSP_34024_32BSP_160907_IB_128-lpr.jpg 1000w, https:\/\/www.nendu.net\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/FBSP_34024_32BSP_160907_IB_128-lpr-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/p>\n<p><strong>Fig.1<\/strong>\u00a0 &#8211; TabomBass<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> O que eles tomam, ent\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Ch\u00e1 ou nada&#8230; n\u00e3o tem uma&#8230; ningu\u00e9m fuma tamb\u00e9m (risos), voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea ningu\u00e9m fumando, ningu\u00e9m bebendo.(\u2026) E a\u00ed eu fui pra l\u00e1 com a Bienal de S\u00e3o Paulo, com os curadores, com o Jochen (Jochen Volz), que \u00e9 o curador-chefe da Bienal e a Gabi (Gabi Ngcobo), que \u00e9 sul-africana; e a Bienal t\u00e1 indo pra alguns lugares do mundo tipo Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica principalmente, pra ativar essas cidades que s\u00e3o simb\u00f3licas pra Bienal, e Accra \u00e9 simb\u00f3lico porque foi pra onde os escravos brasileiros foram enviados de volta: quando eles foram libertos aqui, eles voltaram a praticar o islamismo, um grupo, eles n\u00e3o eram de Gana, mas eles foram expulsos e o rei de Gana aceitou eles de volta e deu um peda\u00e7o de terra pra eles num lugar que na verdade \u00e9 bem nobre, que \u00e9 nessa favela que eu falei, mas \u00e9 na frente do mar, eles t\u00eam uma rela\u00e7\u00e3o muito diferente com o mar&#8230;Em Portugal tem uma coisa de ser o lugar de sa\u00edda e vinda, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Exatamente.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Aqui tem uma coisa de contempla\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m de ida e vinda, mas \u00e9 tipo um cart\u00e3o postal, l\u00e1 \u00e9 tipo o backyard, \u00e9 um quintal, ent\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o completamente diferente, ent\u00e3o voc\u00ea t\u00e1 l\u00e1, as praias s\u00e3o imundas e parece meio o quintal&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ningu\u00e9m vai \u00e0 praia&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Vai! As pessoas v\u00e3o, mas assim, a arquitetura de ocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pra frente da praia, n\u00e3o se olha pro mar, se olha pra l\u00e1 (continente), entendeu? Ent\u00e3o \u00e9 bem interessante. Eles constru\u00edram uma casa, esses afro-brasileiros, e eles foram chamados de \u2018Tabom\u2019, porque eles chegaram l\u00e1 e tudo o que lhes era oferecido, eles falavam \u2018ah, t\u00e1 bom, t\u00e1 bom\u2019, ent\u00e3o eles viraram \u2018Tabom people\u2019 (risos), a\u00ed eles fizeram uma casa l\u00e1 e foi aonde foi o semin\u00e1rio da Bienal, nessa casa que chama \u2018Brazil House\u2019 e l\u00e1 \u00e9 um centro cultural, que \u00e9 muito interessante, \u00e9 tipo um \u2018hub cultural\u2019, acontecem um trilh\u00e3o de coisas l\u00e1 (&#8230;) l\u00e1 \u00e9 muito ligado, e todo mundo \u00e9 tudo, o cara se apresenta: \u2018ah, eu sou rapper, stylist e fot\u00f3grafo\u2019, \u2018ai, eu sou film maker, fot\u00f3grafo e rapper\u2019, \u2018ah, eu sou rapper, stylist e produtor musical\u2019&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> S\u00e3o identidades mais m\u00faltiplas&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9! Exatamente! Aqui a gente fica meio escolhendo o que vai falar, \u2018sou m\u00fasica\u2019, \u2018sou artista pl\u00e1stica\u2019&#8230; a\u00ed num outro momento voc\u00ea fala: \u2018ah, eu sou pesquisadora\u2019, entendeu? L\u00e1 n\u00e3o, \u00e9 tudo de uma vez, eu acho muito interessante.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Isso \u00e9 uma quest\u00e3o do teu trabalho tamb\u00e9m, n\u00e9? Tu trabalhas na m\u00fasica, usas a m\u00fasica, a arte, mas t\u00e1 tudo interligado, obviamente.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Com certeza! Depois de ter ido l\u00e1, foi legal ver o jeito que eles usam isso, porque tem uma beleza no \u2018entre\u2019 das coisas, ent\u00e3o tem umas pessoas que s\u00e3o produtores musicais incr\u00edveis ou sei l\u00e1, rappers incr\u00edveis e tamb\u00e9m fazem alfaiataria, ent\u00e3o tem uma coisa de como \u00e9 que a pessoa transita entre esses lugares e como ela cruza essas coisas tamb\u00e9m, sabe? Ent\u00e3o na verdade, l\u00e1 eu me senti super bem, eu falei \u2018caramba! Eu sou isso tamb\u00e9m\u2019, e eu fui conversando e&#8230; Engra\u00e7ado que a maioria das pessoas l\u00e1 naquele dia era homem, nesse dia da Brazil House,,,<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E que m\u00fasicas que eles est\u00e3o a tocar l\u00e1?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Azonto e Dancehall, que \u00e9 uma varia\u00e7\u00e3o. O que foi legal foi tentar ver como que era a rea\u00e7\u00e3o deles com o funk, sabe? (&#8230;)\u00a0eu tava com uma ideia de fazer um soundsystem, entendendo com a import\u00e2ncia da presen\u00e7a de um soundsystem no espa\u00e7o p\u00fablico&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Voc\u00ea j\u00e1 tem alguns exemplos do seu trabalho com soundsystem, n\u00e9? O <a href=\"http:\/\/viviancaccuri.net\/Oco-Soundsystem\">Oco<\/a>&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Cacuri:<\/strong> \u00c9! E eu tenho um soundsystem, o dub, ele t\u00e1 guardado e eu vou reativar (risos), no eu anivers\u00e1rio de 30 anos, vai ter soudsystem! (risos) Mas ent\u00e3o, entendendo que \u00e9 uma coisa que \u00e9 feita para estar no espa\u00e7o p\u00fablico, que \u00e9 na verdade onde t\u00e1 boa parte do meu trabalho, que eu lido com o espa\u00e7o p\u00fablico, as caminhadas e tal, entendendo o soundsystem como se fosse uma esp\u00e9cie de altar tempor\u00e1rio, que ele \u00e9 gigante, ele \u00e9 massivo, mas ele \u00e9 tempor\u00e1rio, como a m\u00fasica \u00e9 tamb\u00e9m ef\u00eamera, ele t\u00e1 l\u00e1, ele marca um territ\u00f3rio, as pessoas ficam em volta dele, aquilo acontece, e depois ele \u00e9 retirado, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Essa vai ser a interven\u00e7\u00e3o na Bienal?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Vai ser um soundsystem s\u00f3 de grave, s\u00f3 de subwoofer, s\u00f3 press\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Esse grave vai viajar bastante, se for um soundsystem grande, vai viajar pelo parque inteiro&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Ent\u00e3o, a gente n\u00e3o vai exagerar no volume e vai ter uma grade, que vai tocar uma mesma m\u00fasica, quatro vezes por hora.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 muito entrusivo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9, v\u00e3o ter sil\u00eancios que v\u00e3o ser na verdade subgraves.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Eu acho legal essa coisa do ritual de n\u00e3o estar sempre tocando, vai ser numa hora, como se fosse um sino, tem alguma coisa de ritual\u00edstico, o espa\u00e7o, e isso de \u2018olha, se voc\u00ea quer usufruir da pe\u00e7a com som, vai a tal hora\u2019, e as pessoas v\u00e3o, se deslocam, aconteceu, sai.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Vai ser coordenado assim: norte, sul, leste, oeste, entendeu? Tipo, aqui \u00e9 0, aqui \u00e9 15, aqui \u00e9 30, aqui \u00e9 45, a m\u00fasica vai tocar aqui, ent\u00e3o vai ser muito f\u00e1cil da pessoa&#8230; tipo, \u2018ah, agora vai tocar nesse quadril\u00e1tero\u2019 e aqui vai ser uma pe\u00e7a silenciosa de subgraves, que a\u00ed n\u00e3o vai ter som n\u00e9, vai ser s\u00f3 o..<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ent\u00e3o tem o grave e depois tem m\u00fasica na frequ\u00eancia&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9, as frequ\u00eancias do subwoofer, n\u00e9, que s\u00e3o s\u00f3 as do grave. O que vai acontecer, o jeito que eu vou montar esse altar \u00e9 assim: (p\u00f5e o som) ent\u00e3o as velas incorporam a batida e elas v\u00e3o dan\u00e7ar com essa batida, tanto quando tem a m\u00fasica mesmo, quanto quando tem o sil\u00eancio, o subgrave, n\u00e9, ent\u00e3o \u00e9 legar porque \u00e9 s\u00f3 o grave que movimenta, ent\u00e3o ela \u00e9 realmente um&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E cada coluna, a batida \u00e9 um ritmo diferente?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> N\u00e3o&#8230; o som que vai tocar l\u00e1 s\u00e3o o bassline de m\u00fasicas de artistas de gana, ent\u00e3o voc\u00ea tem o synt aqui, as batidas aqui, e a\u00ed o grave aqui, eles v\u00e3o me mandar isso.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> O bassline? Legal!<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Eles v\u00e3o me mandar isso, s\u00f3 que isso n\u00e3o vai tocar, mas voc\u00ea vai entender por qu\u00ea. Eles v\u00e3o me mandar batidas, a\u00ed vai tocar s\u00f3 o grave africano no dia a dia, a\u00ed a cada 15 dias eu vou convidar artistas brasileiros pra compor em cima dos graves africanos, ent\u00e3o vai ser um jeito de come\u00e7ar a provocar um h\u00edbrido, ter uma miscigena\u00e7\u00e3o dos graves africanos com os outros elementos que os brasileiros v\u00e3o trazer.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Ent\u00e3o o soundystem \u00e9 tamb\u00e9m um lugar de espet\u00e1culo e viv\u00eancia?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Isso! \u00c9 um lugar de performance, a\u00ed sim v\u00e3o vir outras caixas, dos m\u00e9dios e agudos, para durante a performance, mas no dia a dia \u00e9 s\u00f3 os graves, que \u00e9 na verdade o \u2018core\u2019, porque o grave ele tanto se relaciona com as harmonias, toda a parte harm\u00f4nica, as vozes, o ritmo das vozes, mas tamb\u00e9m com as batidas, ele \u00e9 um contraponto das batidas, ent\u00e3o ele sintetiza todas as partes da m\u00fasica, ent\u00e3o por isso que eu acho que ele \u00e9 a alma do neg\u00f3cio, entendeu? Ent\u00e3o faz sentido ser um altar s\u00f3 de grave, porque o grave que \u00e9 realmente o \u2018core\u2019, o que sustenta, ent\u00e3o l\u00e1 eu j\u00e1 tava com isso na cabe\u00e7a, eu fui pra Bienal propor isso, eu tinha tido outra ideia, eu tava com essa meio na manga, meio quase como uma estrat\u00e9gia, tipo botar uma outra ideia pra ser&#8230; sabe? S\u00f3 pra eu tamb\u00e9m ter certeza que essa outra ideia era realmente o meu caminho&#8230; eu t\u00f4 ainda num momento que agora que a coisa t\u00e1 se definindo mesmo, t\u00f4 num momento de Bienal, que \u00e9 super importante, ent\u00e3o foi muito legal o jeito de apresentar a ideia, como uma forma de eu entender a narrativa do meu trabalho, pra onde que ele aponta melhor e realmente foi pra coisa da m\u00fasica, da m\u00fasica dan\u00e7ante (risos), de tentar criar esses caminhos, porque \u00e9 um caminho que eu t\u00f4 fazendo, a coisa vai tocar l\u00e1 de Gana, vai tocar na Bienal, ent\u00e3o ela t\u00e1 atravessando o oceano e a\u00ed os brasileiros v\u00e3o fazer essa performance que vai ser transmitida ao vivo pra l\u00e1, ent\u00e3o \u00e9 meio que&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> \u00c9 uma troca&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9! \u00c9, e tamb\u00e9m meio pensando na trajet\u00f3ria dos Tabom, sabe? Ent\u00e3o por isso eu dei o nome de Tabombass, porque assim, a gente n\u00e3o sabe o que \u00e9 Tabom, mas l\u00e1 \u00e9 bem comum, as pessoas sabem, principalmente os artistas conhecem os Tabom, porque s\u00e3o os que constru\u00edram a Brazil House, ent\u00e3o tem uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> \u00c9 muito bonito essa coisa&#8230; Obviamente eu venho acompanhando a tua caminhada, mas ter visto justamente o teu trabalho, que \u00e9 essa coisa de criar rela\u00e7\u00f5es entre pessoas que \u00e9 muito forte; teve isso na caminhada, estabeleceste uma esp\u00e9cie de plataforma, que tem regras, obviamente, \u00e9 um jogo, eu vi s\u00f3 imagens, mas tinha essa coisa do grupo, ou seja, essa rela\u00e7\u00e3o de coletividade que tem no teu trabalho que \u00e9 muito forte e tamb\u00e9m \u00e9 um pensamento sobre o imagin\u00e1rio musical, que \u00e9 muito forte.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9, mas a dan\u00e7a \u00e9 isso, a dan\u00e7a nunca t\u00e1 se dirigindo pra uma pessoa soa, ela se dirige pro coletivo n\u00e9? Uma m\u00fasica dan\u00e7ante \u00e9 pro espa\u00e7o p\u00fablico, e assim, a gente da cidade, classe m\u00e9dia, cidade grande, branco, n\u00e3o sei o que, a gente perdeu um pouco dessa obviedade, de que a m\u00fasica \u00e9 feita pras pessoas, pro p\u00fablico, e l\u00e1, indo pra Gana, eu n\u00e3o entrei em nenhum clube! A m\u00fasica dan\u00e7ante toca na rua! N\u00e3o toca dentro dos lugares, toca tamb\u00e9m, mas&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> N\u00e3o tem voc\u00ea pagar 20 reais pra entrar e&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> N\u00e3o, toca&#8230; n\u00e3o sei se voc\u00ea viu, vou te mostrar aqui. L\u00e1 tem uma coisa que os enterros s\u00e3o muito importantes, s\u00e3o muito mais importantes do que casamento e tal, casamento \u00e9 uma coisa ocidental, ent\u00e3o&#8230; (coloca um v\u00eddeo com uma m\u00fasica super dan\u00e7ante e um soundsystem) n\u00e3o tem muita separa\u00e7\u00e3o da dan\u00e7a com a vida, sabe? Isso que eu achei bonito&#8230; n\u00e3o tem o lugar da dan\u00e7a, o lugar da vida normativa, sabe? Sei l\u00e1, voc\u00ea vai num boteco&#8230; no Rio as pessoas amam boteco e eu nunca gostei muito dessa situa\u00e7\u00e3o de boteco, de ficar falando muito e bebendo, falando, pra mim \u00e9 meio&#8230; eu n\u00e3o consigo, eu saio&#8230; a\u00ed, l\u00e1, como tem um monte de informa\u00e7\u00f5es novas, voc\u00ea fica no boteco s\u00f3 absorvendo um monte de coisas, a\u00ed come\u00e7a a tocar uma m\u00fasica legal, as pessoas levantam, uma pessoa s\u00f3, e n\u00e3o \u00e9 uma dancinha, \u00e9&#8230; a\u00ed as pessoas ficam olhando, a\u00ed depois ela senta, a\u00ed daqui a pouco vem outra, e n\u00e3o \u00e9 nada assim.. n\u00e3o \u00e9 um teasing, \u00e9 uma coisa natural, espont\u00e2nea, ent\u00e3o \u00e9 por isso que eu vou reativar o meu soundsystem, aquele dub.<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Pra Bienal?<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> N\u00e3o, pra uma exposi\u00e7\u00e3o aqui na \u2018A Gentil Carioca\u2019, que chama <a href=\"http:\/\/cargocollective.com\/anitta\/XANADONA-1\">Xanadona<\/a>, que \u00e9 uma exposi\u00e7\u00e3o feminista, e a\u00ed elas me chamaram pra fazer uma coisa e eu propus fazer uma festa de soundsystem pras mulheres conseguirem dan\u00e7ar do jeito que elas quiserem, porque elas v\u00e3o estar seguras, porque elas sabem que a proposta \u00e9 essa; ent\u00e3o \u00e9 uma festa de sensualiza\u00e7\u00e3o extrema, voc\u00ea vai poder dan\u00e7ar do jeito mais louco que voc\u00ea quiser, a proposta vai ser essa e vai ter umas aulas de dan\u00e7a antes, tipo, vai come\u00e7ar com duas aulas de dan\u00e7a e depois vira festa. A\u00ed o soundsystem eu t\u00f4 tentando ver se pode ser o meu, j\u00e1 pra come\u00e7ar a bater nessa tecla da m\u00fasica dan\u00e7ante, da ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, mas assim, o que muitas vezes n\u00e3o fica muito claro s\u00e3o os artistas que simplesmente fazem uma festa, sabe? Porque eu acho que tem que torcer a festa, uma festa n\u00e3o \u00e9 suficiente, tem que pegar o que \u00e9 a ideia de festa, em que lugar acontece e botar isso pra frente. \u00c0s vezes pode ficar um pouco artificial no come\u00e7o, porque tem uma proposta muito clara, muito dita, mas \u00e9 assim e&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Mas eu acho que a proposta \u00e9 v\u00e1lida, porque cria esse imagin\u00e1rio e \u00e9 direto dizer \u2018n\u00e3o, eu quero que nessa festa aconte\u00e7a isso\u2019, n\u00e3o \u00e9 algo que \u00e9 amb\u00edguo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9, porque eu acho que mudar os comportamentos \u00e9 muito dif\u00edcil, ent\u00e3o voc\u00ea tem que&#8230; \u00e9 uma estrutura a mais que voc\u00ea imp\u00f5e, n\u00e9? E a arte \u00e9 um pouco isso, voc\u00ea entende o onde voc\u00ea t\u00e1, os costumes de onde voc\u00ea t\u00e1, o contexto onde voc\u00ea t\u00e1, e voc\u00ea tenta pegar a m\u00e3o da pessoa e falar \u2018vem aqui!\u2019. L\u00e1 na \u00c1frica eu at\u00e9 falei sobre isso, eu visitei o candombl\u00e9 local, que chama Ga (&#8230;) no segundo dia, porque no primeiro dia, a gente discutiu sil\u00eancio e s\u00f3, com ele. Foi assim, primeiro eu cheguei l\u00e1 com um guia local e ele (o cara do Ga) pediu pra eu falar o porqu\u00ea de eu estar ali, a\u00ed eu falei, \u2018olha, eu t\u00f4 aqui porque eu vou fazer uma instala\u00e7\u00e3o de som e tal, expliquei do jeito que eu expliquei pra voc\u00ea\u2019, a\u00ed eu falei \u2018eu t\u00f4 querendo entender mais como \u00e9 que voc\u00eas entendem a vibra\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia do som, da m\u00fasica, aonde que ela se encaixa dentro dos rituais e dos ritos de passagem, como \u00e9 que \u00e9 isso?\u2019, e ele foi falando&#8230; A\u00ed segunda feira agora vai ter um&#8230; eles banem a m\u00fasica por 1 m\u00eas, n\u00e3o pode ter m\u00fasica, porque \u00e9 a hora que eles v\u00e3o plantar o milho e a terra n\u00e3o pode mexer, ent\u00e3o eles falam assim: \u2018A gente observou isso, que nos lugares que a gente planta e continuam as festas e a m\u00fasica, ele n\u00e3o nasce da forma como ele nasce nos lugares que a gente faz o sil\u00eancio\u2019&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Isso \u00e9 incr\u00edvel, a forma como eles pensam a m\u00fasica na sua rela\u00e7\u00e3o c\u00edclica com o resto da vida, com a economia local, com a produ\u00e7\u00e3o de comida&#8230; \u00e9 engra\u00e7ado que, por essa quest\u00e3o temporal da m\u00fasica\u2026.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> E l\u00e1 foi super interessante, porque a\u00ed ele falou que depois que a coisa floresce e eles colhem o milho, a\u00ed \u00e9 rave, a\u00ed \u00e9 festa! Ent\u00e3o \u00e9 uma met\u00e1fora t\u00e3o m\u00faltipla, todas as coisas de come\u00e7ar um projeto, voc\u00ea planta sua semente e fica quieto&#8230;(&#8230;) Tem toda uma coisa, e eles representam a divindade do mar, por isso que eles est\u00e3o na beira do mar, a\u00ed eu falei \u2018puta, Yemanj\u00e1!\u2019, chama <a href=\"https:\/\/www.google.com.br\/search?ei=JPkfW6jNAYSbwASMmZ-IDQ&amp;q=Mammy+Nata+Ghana&amp;oq=Mammy+Nata+Ghana&amp;gs_l=psy-ab.3...3247.4950.0.5158.6.6.0.0.0.0.127.479.0j4.4.0....0...1c.1.64.psy-ab..2.2.250...0i22i30k1j33i160k1.0.Aw4toJ_aYCo\">Mammy Water\u00a0<\/a>\u00a0 (&#8230;) a\u00ed eu falei \u2018nossa, no Brazil, Yemanj\u00e1 \u00e9 tipo, a serious business, \u00e9 de longe a divindade mais festejada e a imagem dela \u00e9 muito propagada\u2019 a\u00ed ele n\u00e3o conhecia e pediu pra eu mostrar as fotos, a\u00ed eu comecei a mostrar a Bahia, 2 milh\u00f5es de pessoas no mar e tal&#8230; a\u00ed dois dias depois eu voltei l\u00e1 pra ele me mostrar os altares, porque eu tava querendo entender como \u00e9 que funciona, o que \u00e9 o altar, e \u00e9 super interessante, porque voc\u00ea entra numa sala, a\u00ed tinha duas portas, uma porta voc\u00ea tinha que entrar e a outra era de sa\u00edda, e ele podia entrar pela de sa\u00edda, s\u00f3 ele, ele entrava pela de sa\u00edda, na verdade, todas as outras pessoas tinham que fazer isso, primeiro da direita, depois da esquerda, a\u00ed voc\u00ea entra no altar, \u00e9 tipo um lugar todo coberto com uns panos, eu n\u00e3o tava entendendo nada o que eram aqueles m\u00f3veis, a\u00ed tinham uns chap\u00e9us pendurados, com o milho que eles plantam em v\u00e1rios lugares, a\u00ed uns len\u00e7\u00f3is cobrindo as aberturas que a sala tinha pra rua&#8230; a\u00ed eu falei assim \u2018por que tem esses buracos?\u2019, e ele falou, \u2018\u00e9 pras pessoas ouvirem a gente rezando e pra gente ouvir as pessoas tamb\u00e9m\u2019, \u2018e por que os v\u00e9us?\u2019, \u2018pra gente n\u00e3o ser visto\u2019, ent\u00e3o eu achei bonito isso&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Sim, esse lugar, que tem que ter o cotidiano a entrar e ao mesmo tempo tem essa rela\u00e7\u00e3o com o cotidiano, n\u00e9? Que \u00e9 super bonito.<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Era uma salinha pequena, com uns m\u00f3veis meio cobertos, os buracos em cima, n\u00e3o tinha nenhum adorno, s\u00f3 um buraco, n\u00e3o tinha luz direito, a\u00ed ele ajoelhava num&#8230; tem um banquinho tamb\u00e9m, que \u00e9 um altar ao mesmo tempo, eles v\u00e3o usando de v\u00e1rios jeitos&#8230; Ent\u00e3o eu fui meio que fazendo um di\u00e1logo com eles sobre as velas, qual \u00e9 o significado de queimar uma coisa, o que \u00e9 isso, o derretimento, as sobras dessa queima, a gente foi conversando umas duas horas, falando sobre os elementos da instala\u00e7\u00e3o, e eu falei \u2018eu t\u00f4 aqui pra trazer os elementos da tradi\u00e7\u00e3o Ga pra dentro do trabalho e come\u00e7ar a criar uma forma h\u00edbrida, que \u00e9 parte das minhas ideias como artista e tamb\u00e9m fazendo refer\u00eancias ao que voc\u00eas fazem\u2019&#8230; e a\u00ed, eu tava falando isso porque ele perguntou qual era o objetivo disso, se era entreter, a\u00ed eu falei que n\u00e3o era entreter, mas na verdade era criar perguntas nas pessoas, e ele falou \u2018mas voc\u00ea colocar s\u00f3 o grave vai ficar meio desagrad\u00e1vel&#8230;\u2019 e eu falei \u2018mas \u00e9 justamente isso que eu quero fazer, isso vai talvez dar uma sensa\u00e7\u00e3o pras pessoas de que t\u00e1 faltando uma coisa e isso vai fazer tanto elas questionarem por que n\u00e3o tem essas outras coisas, quanto projetarem os pr\u00f3prios sons que elas j\u00e1 t\u00eam dentro delas em cima daquilo\u2019, ent\u00e3o eu fui falando pra ele sobre arte contempor\u00e2nea, que arte contempor\u00e2nea \u00e9 diferente de uma arte que quer simplesmente fazer algo bonito, algo agrad\u00e1vel, trazer enjoyment, eu falei \u2018all the enjoyment comes as a consequence\u00b4, mas a coisa come\u00e7a dentro das perguntas, \u00e9 dentro das perguntas que essa parte inacabada gera\u2019 e ele na hora pegou, ele foi junto, ent\u00e3o ele falou \u2018ah, t\u00e1, legal, ent\u00e3o eu acho que voc\u00ea deveria usar essa vela, porque essa vela \u00e9 a vela que simboliza encontro\u2019&#8230;<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> Porque a vela tamb\u00e9m vai trazer esse questionamento, a presen\u00e7a das velas tamb\u00e9m tem esse simbolismo forte&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> \u00c9! Que \u00e9 crist\u00e3o e tamb\u00e9m \u00e9 pag\u00e3o, ela dan\u00e7a, ela acaba, tem uma temporalidade, e eu acho que \u00e9 a parte africana mesmo do trabalho, porque \u00e9 aonde tem movimento, \u00e9 aonde tem realmente um pulso, \u00e9 aonde tem energia e \u00e9 a visualiza\u00e7\u00e3o da parte silenciosa tamb\u00e9m, que a coisa vai acontecer, voc\u00ea n\u00e3o vai ouvir, ou vai ouvir muito pouco, mas tem um pulso ali acontecendo, ent\u00e3o \u00e9 dar vis\u00e3o a coisas invis\u00edveis, a fantasmas, e acho que a religi\u00e3o Ga e as religi\u00f5es afro-brasileiras s\u00e3o sobre isso, sobre essas presen\u00e7as que influenciam a sua realidade, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea, mas elas se manifestam&#8230; e \u00e9 um tema que a Bienal vai falar muito e tamb\u00e9m acho que a presen\u00e7a da vela vai fazer as pessoas pensarem em milhares de coisas, em dor, escravid\u00e3o, f\u00e9, morte, esperan\u00e7a, ent\u00e3o eu t\u00f4 experimentando pra ver a quantidade de velas, eu n\u00e3o quero que seja uma coisa de ostenta\u00e7\u00e3o, mas que seja mais de pontua\u00e7\u00e3o do que ostenta\u00e7\u00e3o, que elas sejam mais austeras, uma pra cada caixa, do que uma coisa daquele barroco crist\u00e3o, sabe? N\u00e3o \u00e9 isso&#8230; porque eu acho que tem gente que sabe fazer esse tipo de forma dentro de uma proposta muito mais a ver com isso, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Rui Chaves:<\/strong> E as velas, elas est\u00e3o sempre presentes na obra ou \u00e9 uma coisa que algu\u00e9m tira e retira, quase como um ritual, algu\u00e9m monta as velas, acende, como um ato performativo&#8230;<\/p>\n<p><strong>Vivian Caccuri:<\/strong> Se isso acontecesse seria durante as performances, essa coisa de produ\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o tem toda uma coisa institucional que interfere na forma, que tem coisas que s\u00e3o poss\u00edveis nas ideias e na pr\u00e1tica come\u00e7am a ficar muito imposs\u00edveis, ent\u00e3o velas que s\u00e3o muito pequenas, que vai ter que ter uma troca gigante, o tempo inteiro, que v\u00e3o ficar sendo apagadas o tempo inteiro, mas todas essas coisas agora \u00e9 o momento em que eu vou testar tudo isso e tamb\u00e9m esses momentos de vela, momentos sem vela&#8230; e tamb\u00e9m vai ter um ac\u00famulo de cera, vai gerar uma certa bagun\u00e7a, ent\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A seguinte conversa ocorreu a 01\/05\/2016. 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